Por Machado de Assis (1867)
— Pois, meu amigo, continue a contar com a minha amizade, que agora é ainda maior. Ame e respeite sua mãe; procure esquecer os sucessos que motivaram a catástrofe de sua vida, e, sem repudiar a missão normal que Deus lhe deu, não confie de um mundo frio e egoísta as santas aspirações da sua jovem inteligência.
— Obrigado, doutor.
Neste momento entrou no carro um casal; o marido, homem de trinta e oito anos, a mulher... não se podia ver através de um véu preto que lhe cobria o rosto. Pouco depois o carro partiu.
A moça, que até então não voltara o rosto, teve necessidade de fazê-lo para responder a uma pergunta do marido. O marido achava-se entre ela e o ex-poeta. A moça deu um pequeno grito. Interrogada por seu marido, respondeu que fora uma dor aguda no coração.
— Há de ser de cansaço, acrescentou ela.
Era Carlota, como já se adivinha.
Durante o resto da viagem nenhum incidente mais ocorreu. A mulher e o marido conversavam sossegadamente; o ex-poeta e o ex-médico conversavam do mesmo modo. Chegando à última estação separaram-se todos. O doutor prometeu ir jantar à casa do rapaz.
Viram-se ainda muitas vezes, mas o encontro do vagão foi o último que houve entre o rapaz e Carlota.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.