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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Que cinismo...! Rapazes paravam às portas, chalaceavam e, de repente, fugiam a rir perseguidos por uma saraivada de impropérios e, como há uma forte solidariedade entre essas mercenárias, de janela a janela a indignação corria e todas, enfurecidas, injuriavam os que haviam, por troça, irritado a companheira que ainda esbravejava indignada, ao longe.

E vagaroso, os braços para as costas, o cigarro nos beiços, o soldado da ronda passeava sem dar atenção à balbúrdia, surdo às obscenidades que explodiam ao longo daquela feira torpe. Ruy Vaz parecia indiferente a tudo. Ia de olhos baixos, sem dar atenção aos reclamos indecorosos que lhe atiravam as mulheres.

— Isto aqui, meu amigo, é mais perigoso do que o caminho que levava ao sítio encantado onde havia a árvore que cantava, o pássaro que falava e a água amarela. Deve-se passar por esta calçada com os ouvidos atochados de algodão para que nos não suceda o que sucedeu aos irmãos da princesa Parizada, que foram transformados em pedra.

— Não é preciso recorrer às Mil e uma noites para buscar um modelo de energia. Temos aqui a polícia, mais indiferente aos escândalos do que Ulysses à voz das sereias ou do que a tal princesa ao clamor das pedras.

Espera aqui um instante. Haviam parado diante de um charuteiro. Ruy Vaz entrou deixando Anselmo à porta. O estudante lançou os olhos pela praça. Duas filas de tíburis reluziam à fulguração do luar. Sons de música vinham de longe, em ondulações, ora brandas, ora fortes, conforme as variações da brisa. Cocheiros discutiam na calçada; passavam famílias à pressa, caminho dos teatros. Quando Ruy Vaz saiu com um embrulhinho, Anselmo estava distraído, de olhos perdidos, cantarolando.

— Vamos?

— Vamos. Seguiram para a rua do Espírito Santo, iluminada pelas grandes rosáceas dos teatros. Ao fundo o Recreio resplandecia como a entrada de um templo. Um homem esgoelava-se anunciando "empadinhas de camarão!" e os cambistas assaltavam os que apareciam oferecendo bilhetes, garantindo que na casa não havia número que prestasse.

À porta do Sant'Ana uma multidão apertava-se. Discutia-se e os cambistas investiam como pobres em adro de igreja, empurravam-se, injuriavam-se. Anselmo deteve-se um momento diante do bilheteiro; Ruy Vaz, porém, tomou-o pelo braço:

— Não, vem comigo; não precisas bilhete. Vamos.

O estudante sentiu uma pancada forte no coração àquela frase "Não precisas bilhete..." e admirou o romancista. Grande influência do homem! Diante dele, a um gesto breve da sua mão, abriam-se todas as portas, mesmo as dos teatros tão avaramente guardadas. Grande homem! Pudesse ele fazer o mesmo! Entrava gente, aos apertões: senhoras pelo braço dos maridos, sorrindo, com ânsia de se aboletarem, receosas de que já houvesse começado o espetáculo.

Quando Ruy Vaz se adiantou, muito grave, Anselmo coseu-se com ele e, apesar da confiança que depositava no prestígio do grande homem, pálido, temia ser repelido pelos dois cérebros — um ruivo, de pêra, outro velho, gordo, de óculos, que espiava atentamente quantos entravam acumulando os bilhetes na perna gorda.

O romancista fez o estudante passar à frente e, como o ruivo fizesse um gesto como a pedir o bilhete, ele tocou-lhe com familiaridade o ombro dizendo apenas:

— Vem comigo. Tanto bastou para que o deixassem passar. Poderoso Sésamo! Vem comigo! Tão simples palavras faziam com que se acomodassem os exigentes porteiros, tão severos em questões de entradas e de senhas. Ao ver-se no pátio do teatro, Anselmo sentiu a alma dilatada como se houvesse saído de uma prisão e respirou desafogadamente.

— Agora sim...

— Que é?

— Pensei que os homens opusessem alguma dúvida.

— Comigo! exclamou orgulhosamente o romancista. Ora qual! Caminharam e, como enfrentassem com o tablado coberto onde, em torno das mesas, uma multidão alegre fervilhava, um rapaz moreno, de pince-nez, pondo-se de pé com o chapéu levantado acima da cabeça, a toda altura do braço, disse solenemente:

— Saúdo a literatura indígena! e avançando, encolhido e curvado, pôs-se a estalar sonoramente com a língua no palatino; depois, enristando a bengala, deu uma volta nos calcanhares mostrando a multidão que o cercava e, em voz cheia de desprezo, bramiu:

— Vou começar a catequese noturna dos tupinambás. Sou o missionário do espírito, o Anchieta desta taba! E, de novo, fez estrondar a língua atirando uma bengalada a uma das mesas:

— Garçom! Uma Einbeck... vamos! E hirto, o sobrecenho carregado, fitou os olhos no caixeiro, rugindo.

Ruy Vaz dirigiu-se ao moreno e, vendo que Anselmo guardava atitude reservada, interrogou-o como em segredo:

— Não conheces o Neiva?

— De nome, há muito tempo!

O romancista fê-lo avançar e apresentou-o:

— Anselmo Ribas... Paulo Neiva. Os dois rapazes trocaram um aperto de mão e o moreno ofereceu um lugar à mesa que ocupava, onde outros bebiam entre nuvens de fumo. Ruy Vaz era intimo de todos e o Neiva foi apresentando o estudante:

Isto aqui é uma sucursal do Parnaso, com uma dependência mais lucrativa:

(continua...)

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