Por Raul Pompéia (1880)
E essa repugnância, aliás contrária ao seu modo de pensar de outrora, não era sem fundamentos.
Com grandes despesas conseguira ele edificar nos sertões do Amazonas uma morada perfeitamente confortável; nela se estabelecera depois de casado; e a ela vira chegar, em primeiro lugar Rosalina, entregue pela miséria e depois o seu primogênito, entregue pelo céu. Essa picada que agora se ostentava negra ao seu espírito exaltado fora o teatro da morte do seu querido servo e em época mais remota também vira passar o corpo inerte do seu sogro. Estas lembranças doces e lúgubres, aquele sacrifício parcial da sua fortuna na construção da casa, a amizade do padre Jorge e um desejo de vingança que vegetava no âmago do seu coração eram algemas que o ligavam àquele solo, e que doloroso não seria para ele rompêlas!
Se ao condenado das galés se oferecesse arrancar os grilhões levando com eles seus pés, por certo que não aceitaria embora a liberdade se lhe antolhasse risonha.
Outras não eram as condições de Eustáquio. Eis o que explicava a sua repugnância.
Esquecia-se talvez da prudência, da segurança dos seus, mas na sua vontade predominava o desejo de permanecer no seu posto, contentando-se provisoriamente com a defesa, deu-se porém um fato que fê-lo, se não tomar a posição ofensiva, ao menos dar mui enérgicas providências, impossibilitando a partida para fora de S. João do Príncipe.
Certa noite (a seguinte ao dia da tentativa de morte) dirigiu-se ele pensativo e triste ao seu quarto cuja porta abria-se para o corredor central da habitação.
No seu crânio se acumulavam atropeladamente legiões indisciplinadas de pensamentos e enquanto tentava organizá-las uma pequena cabeçada na porta lembrou-lhe a realidade.
Viu-se então no seu gabinete.
Apesar de simples possuía a câmara tudo o que se podia desejar por sua utilidade.
Duas janelas, das quais só uma estava aberta, delineavam-se na parede fronteira à porta.
Dessa mesma parede e de outra que a encontrava caía como um crescente uma rede, cujas franjas tremulavam ao frescor da noite, e aos pés da rede havia uma pequena mesa coberta de livros empilhados em cima da qual brilhava uma luz.
Colada a outra parede via-se uma cama coberta por uma colcha de florões coloridos mas desmaiados, leito habitual de Eustáquio, que, diferente dos outros habitantes do norte, gostava pouco de rede.
O marido de Branca assentou-se na rede do quarto a qual depois de duas oscilações ficou imóvel, ao menos tanto quanto Eustáquio, pois mergulhara-se este em uma dessas meditações insondáveis que paralisam o físico.
Sentia encher-se-lhe a boca de brados de ódio contra os seus cruéis perseguidores. Tinha lembrança de chamar em seu auxílio a polícia de Manaus, mas carecia de meios para isso. Acreditava na sua superexcitação que podia pela sua influência mandar exterminar os bandidos por todos os moradores de S. João do Príncipe, porém logo abandonava essa crença; e, encontrando alívio quando lhe vinha à memória o seu defensor desinteressado, dizia:
— Oh, homem querido, aparece! Quero te abraçar! agradecer!
Logo depois pensava na partida que o bem estar da família exigia. Rompiam-lhe dos lábios palavras que eram os coriscos da eletricidade do seu cérebro.
— Os infames, dizia, querem forçar-me a fugir... E donde! Da minha casa! Eu! Deixar o que me pertence, meus amigos, o meu teto, minhas recordações! Nunca! Mas, ah! Branca deseja partir... E tem razão... tem medo. Eu também já quis sair desta casa, pois estava aterrado. Acabei por mudar de resolução, porém Branca não mudou...
"Talvez me submeta a sua vontade, mas antes disso vou tentar uma cousa... Tenho um plano... Não conto, infelizmente com o inepto subdelegado; irei pois, só com os paraenses. Hei-de ir! Hei-de ir, e hei-de saber ao certo quem me persegue.
Ah malvados!"
Ia-se tornando tarde, porém, Eustáquio não estava em si, não via as horas.
A sua meditação intercortada de frases já durara algum tempo. Ele ergueuse e foi para a cama com a intenção de dormir. Conseguiu apenas deitar-se, levantando-se logo a retomar na rede o seu primitivo lugar.
Aí, com as mãos cruzadas sustentando a testa e com os cotovelos enterrados nos joelhos, permaneceu ainda.
Deu-se então uma circunstância mui importante, que o marido de Branca teria notado se a sua atenção não se achasse tão longe do seu quarto.
Acima do parapeito de janela aberta, que se alargava no fundo como uma tela negra, apareceu a extremidade de uma vara e quase imediatamente desceu.
Mais ou menos às cinco horas da madrugada principiou o dia a despontar. Eustáquio, sem mesmo saber como passara a noite, chegou-se à janela.
A vidraça estava suspensa, ele inclinou-se para respirar as exalações do prado.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.