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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

— Seu felizardo ! — disse o outro, olhando-o @om in.veja Olha o melro, hein

E Arthur cofiava o bigode, entumecido de vaidade, o olho enternecido.

Melchior então, por um instincto de despeito, affectou não dar importancia á aventura que suspeitava : bocejou, estirou-se na cadeira, fallou de S. Carlos, do circo, d'outras cousas. E de repente :

— Então você agora é da panellinha do Nazareno

Arthur córou :

— Conhecemo-nos, É um amigo do Damião que foi meu companheiro em Coimbra. Porquê

— Vi-o hontem no Martinho . . . Você não me viu. Estava em grande cavaqueira com o Nazareno — E depois d'uma pausa : — Faz mal. Fraca sociedade.

Arthur então protestou : fez o elogio do Naza reno, do Mathias ; attribaia-lhes todas as virtudes, grandes excellencias d'espirito,

Melchior muito estirado na cadeira, com o ventre saliente, todo envolvido na fumaraça do charuto, disse com desprezo :

— Uma corja ! Uma corja !

Arthur escandalisou-se. Eram, disse, os caracteres mais nobres de Lisboa. .E irritado pelo tom d'escarneo de Melchior, pela sua attitude repoltreada de escrevinhador pedante, affirmou que o Mathias, o Nazareno, dentro de dous ou tres annos, haviam de governar o Paiz. O partido republicano estava certo de triumphar . . .

Melchior que limpava as unhas com um canivete teve um risinho secco :

— Ora historias, amigo ! Quatro municipaes, de chanfalhos desembainhados varrem todos os repu blicanos !

A contradicção fez perder a Arthur a pruden cia. Fallou do Club, da organisação do partido socialista no Porto, em Vizeu, em Coimbra : havia quinze mil operarãog promptos ; inventava forçae sociaes ao serviço da democracia : o dinheiro não faltava e — lembrando-se da presença do amigo Abilio» no Club da rua do Principe — jurou que toda a burguezia de Lisboa, proprietarios. banqueiros, pertenciam ao partido republicano . . .

Melchior fitou-o um momento com a expressão victoriosa de quem obtem a confissão d'um crime :

— Ah ! o amigo tambem é do Club

Arthur, vermelho, pensando que necessitava para o seu livro o apoio conservador do Seculo, negou. Não pertencia, mas emfim a verdade era a verdade . . . O partido republicano era forte . . *

— Meia duzia de maltrapilhos—rosnou Melchior, cuja verbosidade usual parecia esterilisada.

Calaram-se. E d'ahi a momentos Arthur sahiu, descontente. Melchior nem levantou a cabeça do papel : disse-lhe apenas um adeus amigo extremamente seceo.

A injustiça feita aos seus amigos fazia-lh'os parecer mais dignos, mais superiores. E como as palavras de Melchior o tinham revoltado, jurou dedicar-se aos republicanos, como aos unicos homens de justiça e de verdade que até ahi encontrara.

Não deixou mesmo, n'essa noite; de contar ao Nazareno a sua questão com o «tolo do Melchior». Mas o Nazareno não conhecia no Seculo senãc 0 Saavedra, que, disse, «era um corruptozinho que merecia na enra a badine que usava na mão D.

Arthur, então, lembrou a necessidade de mogtrar ao Paiz a força do partido : achava prejudicial que o Club tivesse, havia quinze dias, suspendido as suas sessões, O motivo era o Mathias estar preparando o seu grande Programma d'Organisação Democratica, e parecer-lhe inutil reunirem-se antes de possuirem aquella base de trabalho, de acção, que era, segundo o Nazareno, uma das grandes obras que se tinham eseripto n'este seculo ».

—O Mathias leu-me hontem a primeira parte. Depois de Proudhon, não se tornou a escpever nada tão forte e tão elevado. O amigo verá !

No emtanto Arthur estava inquieto por causa da sua questão com o Melchior » : não conhecia que largo fundo d'indifferença pelas idéas ha nos espiritos inferiores e, julgando tel-o escandalisado no seu fervor xmonarchico, receava perder a noticia, o promettido folhetim no Seculo, e até os serviços

do velho Gonçalves, pae de tantos filhos ! Por isso, na manhã seguinte, ficou encantado encontrando Melchior, que vinha, risonho e florido, almoçar com o caro Arthur b.

Justamente, Arthur recebera, ao acordar, uma carta da typographia annuncia,ndo a terminação d o volume e remettendo a conta da impressão. Melchior examinou-a, achou-a muito moderada, prometteu mandar o Gonçalves á typographia e assegurou que depois do almocinho ia fazer uma noticia catita.



(continua...)

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