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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

E como diante do toucador da Rainha Maria Francisca, ela arranjava à pressa os ganchos do cabelo, para aproveitar a solidão favorável, apressou com um esforço a confidência que o comovia:

- E em Oliveira? Lá por Oliveira?

- Em Oliveira, nada... Muito calor!

Gonçalo, movendo os dedos lentos pela moldura do espelho, fino entrelaçamento de açucenas e louros, murmurou:

- Eu sei apenas das Lousadas, das tuas amigas Lousadas. Continuam em plena atividade...

Gracinha negou candidamente:

- As Lousadas? Não! Nem têm aparecido.

- Mas têm tecido!

E como os verdes olhos de Gracinha se alargaram, sem compreender, Gonçalo arrancou vivamente da algibeira a carta que guardara, que agora lhe pesava, como uma chapa de ferro:

- Olha, Gracinha. Mais vale desabafarmos! Aí tens o que elas há dias escreveram a teu marido...

Num relance Gracinha devorou as linhas terríveis. E com ondas de sangue nas faces apertando as mãos numa aflição, um desespero, em que o papel amarfanhou:

- Oh Gonçalo! pois...

Gonçalo acudiu:

- Não! o Barrolo não se importou! até se riu! E eu também, quando ele me entregou essepapelucho... E a prova de que ambos o consideramos uma mexeriquice insensata é que eu to mostro tão francamente.

Ela esmagava a carta nas mãos juntas e trêmulas, pálida agora e emudecida pelo espanto, retendo grandes lágrimas que rebrilhavam. E Gonçalo comovido, com gravidade, com ternura:

- Mas tu, Gracinha, sabes o que são terras pequenas. Sobretudo Oliveira! Precisas muitocuidado, muita reserva... Ai de mim! De mim vem a culpa. Reatei relações que nunca se deviam reatar... Bem me tenho arrependido! E acredita! por causa dessa situação tão falsa e tão perigosa, que eu criei, levianamente, por ambição tola, passei aqui na Torre dias amargurados... Até nem me atrevia voltar a Oliveira. Hoje, não sei por quê, depois desta aventura, parece que tudo se esbateu, se afundou para uma grande sombra... Enfim já não me arde tão em brasa no coração... Por isso desabafo assim, serenamente.

Ela desatou num solto, doloroso, choro em que a sua fraca alma se desfazia. Com redobrada ternura Gonçalo abraçou os pobres ombros vergados que os soluços espedaçavam. E foi com ela toda refugiada no seu peito, que ainda a aconselhou, docemente:

- Gracinha, o passado morreu, e todos precisamos, para honra de todos, que continue morto.Pelo menos que por fora, em cada gesto teu, pareça bem morto! Sou eu que to peço, pelo nosso nome!...

Dentre os braços do irmão, ela gemeu com infinita humildade:

- Mas ele até foi embora!... Nem quis estar mais em Oliveira!

Gonçalo acariciou a acabrunhada cabeça que de novo se escondera contra o seu peito, contra ele se apertava, como procurando a fresca misericordiosa que dentro sentia brotar:

- Bem sei. E isso me mostra que tens sido for-te... Mas precisas muita reserva, muita vigilância,Gracinha!... E agora sossega. Não falemos mais, nunca mais, neste incidente... Porque foi apenas um acidente. E que eu provoquei, ai de mim, por leviandade, por ilusão. Passou, está esquecido! Sossega, descansa. E quando desceres traze os olhos bem secos.

Lentamente a desprendera dos braços, onde ela se arraigava como ao abrigo mais certo e à consolação mais desejada. E saia, engasgado pela emoção, recalcando também as lágrimas... Um gemido tímido, suplicante, ainda o reteve:

- Gonçalo! mas tu pensas...

Ele voltou, de novo a abraçou, a beijou na testa lentamente:

- Eu penso que tu, agora bem avisada, bem aconselhada, vais mostrar muita dignidade, muitafirmeza.

Rapidamente abalou, cerrou a porta. E na escada estreita, escassamente alumiada por uma clarabóia baça, limpava as pálpebras, quando esbarrou com o Barrolo, que procurava Gracinha, para apressar o almoço.

- A Gracinha já desce! - atabalhoou o Fidalgo. - Está a lavar as mãos! Já desce!... Mas antes doalmoço vamos à cavalariça. Devemos uma visita à égua, a essa querida égua que me salvou!

- É verdade, caramba! - concordou logo Barrolo revirando nos degraus, com entusiasmo. Precisamos visitar a égua... Grande, briosa, hem! Mas aposto que ficou mais suada que as minhas... Imagina! uma trotada daquelas, desde Oliveira, e nem um pêlo molhado! Grandes éguas! Também, o que eu as olho, o que as trato!

Na cavalariça, ambos afagaram a égua. Barrolo lembrou que se mimoseasse com uma ração larga de cenoura. Depois - para que Gracinha, com vagar, se calmasse - o Fidalgo arrastou o Barrolo ao pomar e à horta...

- Tu não vens à Torre há perto de seis meses, Barrolinho! Precisas ver, admirar progressos.Anda agora por aqui a mão forte do Pereira da Riosa...

- Imagino! grande homem, o Pereira! Mas eu tenho uma fome, Gonçalinho!

- Também eu!

(continua...)

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