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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Apenas Barrolo correra a porta - o Fidalgo recomeçou com o Bento a deliciosa história da briga, revivendo as surpresas e os rasgos, simulando os arremessos da égua, arrebatando o chicote para representar as cutiladas silvantes, que arrancavam febra e sangue... E de repente, em ceroulas:

- Oh Bento, traze o meu chapéu... Estou desconfiado que a bala roçou pelo chapéu.

Ambos remiraram, esquadrinharam o chapéu. O Bento, no seu encarecimento da façanha, achava a copa amolgada - até chamuscada.

- A bala passou de raspão, Sr. Doutor!

O Fidalgo negou, com a modéstia grave dum forte:

- Não! Nem de raspão!... Quando o malandro desfechou já o braço lhe tremia... Devemosagradecer a Deus, Bento. Mas eu realmente não corri grande perigo!

Depois de vestido, Gonçalo, passeando no quarto, releu a carta. Sim, certamente das Lousadas. Mas agora essa maledicência, soprada com tão sórdida maldade sobre as pobres bochechas do Barrolo, não causava dano - antes servia, quase beneficamente, como a brasa dum ferro, para sarar um dano. O pobre Barrolo apenas se impressionara com a revelação da sua bacoquice, essa ingrata alcunha posta pelos rapazes amigos, em galhofas ingratas do Club e debaixo dos Arcos. A outra insinuação terrível, Gracinha reverdecendo ao calor amoroso do Cavaleiro, essa mal a compreendera, escassamente a atendera num desdém distraído e cândido. Mas a carta que assim silvava por sobre o bom Barrolo como flecha errada - acertava em Gracinha, feriria Gracinha no seu orgulho, no seu impressionável pudor, mostrando à pobre tonta como o seu nome e mesmo o seu coração já arrastavam enxovalhadamente, pela rasteira, mexeriquice das Lousadas!... Certeza tão humilhadora não apagaria um sentimento - que se não apagava com humilhações mais íntimas, tanto mais dolorosas. Mas estimularia a sua reserva e o seu desconfiado recato: - e agora que André se afastara para Lisboa, operaria nela, surdamente, solitariamente, sem que a presença tentadora lhe desmanchasse a influência sossegadora e salutar. Assim o torpe papel aproveitava a Gracinha como um aviso temeroso pregado na parede. E rancorosamente preparada pelas duas fêmeas para desencadear nos Cunhais escândalo e dor - talvez restabelecesse, na ameaçada casa, quietação e gravidade. - Gonçalo esfregou as mãos pensando - que em tão ditosa manhã talvez esse mal redundasse em bem!

- Oh Bento, onde está a Sra. D. Graça?

- A menina subiu agora há pouco para o seu quarto, Sr. Doutor.

Era o seu quarto de solteira, claro e fresco sobre o pomar, onde ainda se conservava o seu leito de linda madeira embutida, um toucador ilustre que pertencera à Rainha D. Maria Francisca de Sabóia, e o sofá, as cadeiras de casimira clara em que Gracinha bordara, num arrastado labor de anos, o Açor negro dos Ramires. E sempre que voltava à Torre Gracinha gostava de reviver, no seu quarto, as horas de solteira, remexendo as gavetas, folheando velhos romances ingleses na estantezinha envidraçada, ou simplesmente da varanda contemplando a querida quinta estendida até aos outeiros de Valverde, a verde quinta, tão misturada à sua vida que cada árvore lhe sussurrava, cada recanto de verdura era como um recanto do seu pensamento.

Gonçalo subiu bateu à porta cerrada com o antigo aviso: - "Licença para o mano!" Ela correu da varanda, onde regava nos seus antigos vasos vidrados plantas sempre renovadas e cuidadas pela Rosa com carinho. E desabafando logo do pensamento que a enchia:

- Oh Gonçalo! mas que felicidade nós virmos à Torre, justamente hoje, que te sucedeu coisatamanha!

- É verdade, Gracinha, grande sorte! E não me admirei nada de te ver... Era como se aindavivesses na Torre e te encontrasse no corredor... Quem estranhei foi o Barrolo! E no primeiro momento depois de desmontar, pensava assim, vagamente: "mas que diabo faz aqui o Barrolo? Como diabo se acha aqui o Barrolo?..." Curioso, hem? Foi talvez que, depois da desordem, me senti remoçado, com um sangue novo, e me julguei no tempo em que desejávamos uma guerra em Portugal, e nós cercados na Torre, sob o nosso pendão, o nosso terço atirando bombardas aos espanhóis...

Ela ria, lembrada dessas imaginações heróicas. E com o vestido entalado entre os joelhos recomeçou a lenta rega dos seus vasos - enquanto Gonçalo, encostado à varanda, considerando a Torre, retomado pela idéia duma concordância mais íntima, que desde essa manhã se estabelecera entre ele e aquele heróico resto da Honra de Santa Irenéia, como se a sua força, tanto tempo quebrada, se soldasse enfim firmemente à força secular da sua raça.

- Oh Gonçalo! tu deves estar muito cansado! Depois dessa verdadeira batalha...

- Não, cansado não... Mas com fome. Com fome, e com uma sede esplêndida!

Ela pousou logo o regador, sacudindo as mãos alegremente:

- Pois o almoço não tarda!... Já andei a trabalhar na cozinha, com a Rosa, numa pescada àespanhola... É uma receita nova do Barão das Marges.

- Então insossa, como ele.

- Não! até picante: foi o Sr. Vigário-Geral que lha ensinou.

(continua...)

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