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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ela recordou-lhe, muito tranqüilamente, a excelente disposição do sítio ?. Um dos quartos ao pé da sacristia, como ele sabia, dava para um pátio onde se tinha feito um barracão no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as traseiras da casa do sineiro... A porta , da cozinha do tio Esguelhas abria para o pátio: era sair da sacristia, atravessá-lo, e o senhor pároco estava no ninho!

- E ela?

- Ela entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que dá para o adro. Não passa viva alma, é um ermo. E se alguém visse, nada mais natural, era a menina Amélia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, já se vê, é ainda pelo alto, que o plano pode-se aperfeiçoar...

- Sim, compreendo, é um esboço, disse Amaro que passeava pelo quarto refletindo.

- Eu conheço bem o sítio, senhor pároco, e creia o que lhe digo: para um senhor eclesiástico que tem o seu arranjinho, não há melhor que a casa do sineiro!

Amaro parou diante dela, rindo, familiarizando-se:

- Ó tia Dionísia, diga lá com franqueza: não é a primeira vez que você aconselha a casa do sineiro, hem?

Ela então negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquela idéia de noite, a malucar na cama. Pela manhã cedo fora examinar o sítio, e reconhecera que estava a calhar.

Tossicou, foi-se aproximando sem ruído da porta: e voltando-se ainda, com um último conselho: - Tudo está em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.

•••

Era isso agora o que preocupava o padre Amaro.

O tio Esguelhas passava na Sé, entre os serventes e os sacristães, por um macambúzio. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquele defeito o tornava, segundo a Regra, impróprio para o serviço da Igreja. Mas o antigo pároco José Miguéis, em obediência ao senhor bispo, conservara-o na Sé, argumentando que o trambolhão desastroso que motivara a amputação fora na torre, numa ocasião de festa, colaborando no culto: ergo estava claramente indicada a intenção de Nosso Senhor em não prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomara conta da paróquia, o coxo valera-se da influência da S. Joaneira e de Amélia para conservar, como ele dizia, a corda do sino. Era além disso (e fora a opinião da Rua da Misericórdia) uma obra de caridade. O tio Esguelhas, viúvo, tinha uma filha de quinze anos paralítica, desde pequena, das pernas. "O diabo embirrou com as pernas da família", costumava dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraça que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antônia, e que o pai chamava Totó) o torturava com perrices, frenesis, caprichos abomináveis. O doutor Gouveia declarara-a histérica: mas era uma certeza, para as pessoas de bons princípios, que a Totó estava possuída do Demônio. Houvera mesmo o plano de a exorcismar; o senhor vigário-geral, porém, sempre assustado com a imprensa, hesitara em conceder a permissão ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as aspersões simples de água benta. De resto não se sabia a natureza do endemoninhamento da paralítica: a Sra. D. Maria da Assunção ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra versão, assegurava que a desgraçada se dilacerava com as unhas... O tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia secamente:

- Lá está.

Os intervalos do seu serviço da igreja passava-os todos com a filha no casebre. Só atravessava o largo para ir à botica por algum remédio, ou comprar bolos à confeitaria da Teresa. Todo o dia aquele recanto da Sé, o pátio, o barracão, o alto muro ao lado coberto de parietárias, a casa ao fundo com a sua janela de portada negra numa parede lazeirenta, permaneciam num silêncio, numa sombra úmida: e os meninos do coro, que às vezes se arriscavam a ir pé ante pé, pelo pátio, espreitar o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado à lareira, com o cachimbo na mão, cuspilhando tristemente para as cinzas.

Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor pároco. E Amaro, nessa manhã, ao revestir-se, sentindo-lhe nas lájeas do pátio a muleta, ia já ruminando a sua história - porque não podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, de algum modo, que o desejava para um serviço religioso... E que serviço, a não ser preparar, em segredo e longe das oposições mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?

Ao vê-lo entrar na sacristia, deu-lhe logo um "bons-dias" amáveis. Achou-lhe uma bela cara de saúde! Também não admirava - porque, segundo todos os santos padres, a freqüentação dos sinos, pela virtude particular que lhes comunica a consagração, dá uma alegria e um bem-estar especiais. Contou então com bonomia ao tio Esguelhas e aos dois sacristães que, quando era pequeno, em casa da Sra.

marquesa de Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...

Riram muito, extasiando-se com a pilhéria de sua senhoria.

(continua...)

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