Por Eça de Queirós (1900)
Resolução da véspera, ao chá. Gonçalo não aparecia, não escrevia... Gracinha a matutar, inquieta. Ele também espantado daquele sumiço depois do cesto dos pêssegos. De modo que ao chã, pensando também que a parelha necessitava uma trotada, lembrara a Gracinha: "Vamos nós amanhã à Torre? no phaéton?"
- Além disso precisava falar contigo, Gonçalo... Tenho andado aborrecido.
O Fidalgo juntou duas almofadas no divan, onde se enterrou:
- Como aborrecido?... Aborrecido por quê?...
Barrolo, com as mãos nos bolsos da rabona de flanela, que lhe cingia as ancas gordas, considerou as flores do tapete, melancolicamente:
- É uma grande seca! A gente não pode confiar em ninguém... Nem ter familiaridades!...
Num lampejo Gonçalo imaginou o Cavaleiro e Gracinha mostrando estouvadamente nos Cunhais, como outrora entre os arvoredos da Torre, o sentimento que os dominava. E pressentiu um desabafo, alguma queixa triste do pobre Barrolo, amargurado por suspeitas, talvez por intimidades que espreitara. Mas a emoção suprema da sua batalha sumira para uma sombra inferior os cuidados que, ainda na véspera, o oprimiam; todas as dificuldades da vida lhe apareciam agora, de repente, naquele frescor da sua coragem nova, tão fáceis de abater como os desafios dos valentões; e não se assustou com as confidências do cunhado, bem seguro de impor àquela alma submissa de bacoco a confiança e a quietação. Até sorriu, com indolência:
- Então, Barrolinho? Sucedeu alguma peripécia?
- Recebi uma carta.
- Ah!
Gravemente Barrolo desabotoou o jaquetão, puxou do bolso interior uma larga carteira, de couro verde e lustroso, com monograma de ouro. E foi a carteira que ele mostrou a Gonçalo, com satisfação.
- Bonita, hem? Presente do André, coitado... Creio que até a mandou vir de Paris. O monogramatem muito chic.
Gonçalo esperava, espantado. Enfim o bom Barrolo tirou da carteira uma carta - já amarrotada, depois alisada. Era, num papel pautado, uma letra miudinha que o Fidalgo apenas relanceou, declarando logo com segurança:
- É das Lousadas.
E leu, vagarosamente, serenamente, com o cotovelo enterrado na almofada: Ex.mo Sr. José Barrolo. - V Exa., apesar de todos os seus amigos o alcunharem de Zê Bacoco, mostrou agora muita esperteza, chamando de novo para a sua intimidade e de sua digna esposa o gentil André Cavaleiro, nosso Governador Civil. Com efeito a esposa de V Exa., a linda Gracinha, que neste últimos tempos andava tão murcha e até desbotada (o que a todos nos inquietava), imediatamente refloriu, e ganhou cores, desde que possui a valiosa companhia da primeira autoridade do distrito. Portou-se pois V. Exa. como marido zeloso, e desejoso da felicidade e boa saúde de sua interessante esposa. Nem parece rasgo daquele que toda a Oliveira considera como o seu mais ilustre pateta! Os nossos sinceros parabéns!"
Gonçalo guardou muito sossegadamente na algibeira aquela carta que, dias antes, o lançaria em infinita amargura e fúria:
- É das Lousadas... E tu deste importância a semelhante baboseira?
O Barrolo repontou, com as bochechas abrasadas:
- Se te parece! Sempre embirrei com bilhetinhos anônimos... E depois essa insolência a respeitode os amigos me chamarem Bacoco... Grande infâmia, hem? Tu acreditas?... Eu não acredito! mas lança cizânia entre mim e os rapazes... Nem voltei ao Club... Bacoco! Por quê? Porque eu sou simples, sempre franco, disposto a arranchar... Não! Se os rapazes no Club me chamam bacoco pelas costas, caramba, mostram ingratidão! Mas eu não acredito! - Rebolou pelo quarto, desconsoladamente, as mãos cruzadas sobre as gordas nádegas. Depois, estacando diante do divan, donde Gonçalo o considerava, com piedade:
- Enquanto ao resto da carta é tão estúpido, tão atrapalhado que ao princípio nem compreendi.Agora percebo... Querem dizer que a Gracinha e o Cavaleiro têm namoro... E o que me parece que querem dizer! Ora vê tu que disparate! Até a intimidade do Cavaleiro é mentira. O pobre rapaz, desde que lá jantou, só apareceu três ou quatro vezes, à noite, para a manilha, com o Mendonça... E agora abalou para Lisboa.
Então o Fidalgo pulou, de surpresa.
- O quê! o Cavaleiro foi para Lisboa?
- Pois partiu há três dias!
- Com demora?
- Com demora, com grande demora... Só volta no meado de outubro para a Eleição.
- Ah!
Mas o Bento rompeu pelo quarto, com o jarro d'água quente, duas toalhas de rendas, ainda numa excitação que o azafamava. Diante do espelho, lentamente Barrolo reabotoava o jaquetão:
- Bem, até logo, Gonçalinho. Eu desço à cavalariça, visitar a parelha. Não imaginas! desdeOliveira, sem descanso, uma trotada esplêndida. E nem um pêlo suado! Tu guardas a carta?
- Guardo, para estudar a letra.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.