Por Eça de Queirós (1925)
Fallava-se a meia voz, fumando, de futuras sessoes, de projectos, d'esperanças politicas, d'infamias da Monarchia—e as vozes abafadas davam um tom de conspiração ás accusações, ás injurias lançadas ao Governo : attribuia-se-lhe unanimemente a decadencia vil da nação ; n'um circulo, d'onde se elevava uma fumaça de cigarros, cada um expunha « uma grande vergonha » — a ruina economica, o baixo preço dos salarios, o compadrio dos empregos, o abandono das colonias ; fallava-se por generalidades vagas : era uma choldra ! O paiz estava perdido ! Nada, nada, nada ! Tudo uma canalha ! — e hombros encolhiam-se com tedio, faces chupavam-se, aspirando o fumo do tabaco. Mas, em geral, a irritação contra as pessoas excedia a hostilidade ás instituições : atacava-se a vida immora] dos ministros, contavam-se ao ouvido anecdotas da Côrte, grunhia-se contra o abaixamento dos jorna- listas conservadores ; um individuo magro, cheio d'espinhas carnaes, parecia attribuir todos os soffrimentos da humanidade ao administrador do Bairro Central, que de certo odiava. Outros, então, contavam despeitos pessoaes. E como justificação d'aquellas coleras, voltavam constantemente as afñrmações humanitarias : € a miseria dos operarios a indignidade dos ricaços Os mais incultos ior-
mulavam a sua indignação politica com um termo de calão ou uma obscenidade de taberna ; os mais illustrados declamavam vagamente, fallando com gravidade na corrupção do baixo imperio Ninguem parecia ter uma noção exacta de reformas definidas: mas todos, vagamente, confiavam que da Republica escorreria a felicidade publica, penetrando todas as classes, até os mais obscuros casebres, com a fecunda universalidade da luz que cahe d'um astro. Ás vezes, um d'elles ia escutar á porta, outros seguiam-no, escondendo os cigarros atraz das costas . . . E ouvia-se a voz morosa do homem feio, impassivel, declamando considerações sobre o processo dos Girondinos
Mathias, de longe, reclamava-os com um olhar imperioso, alguns obedeciam resignadamente, indo immobilisar-se nas suas cadeiras, sob o lento escorrer da prosa infindavel ; outros recuavam rapidamente, refugiando-se no fundo da saleta, onde o bico de gaz erguia a sua tulipa de luz crua.
O Nazareno parecia o mais impaciente. Segundo elle, era inutil haver sessões, se ellas deviam ser tomadas por aquellas leituras rhetoricas. Então discutiram-se os trabalhos urgentes do Clube Antes de tudo, era necessario fundar um jornal. Um sujeito de barbas louras lembrou a necessidade de alliciar alguns militares. O Club devia fazer um manifesto a todos os liberaes, lembrava outro, e pôr-se em communicação oom os republicanos hespanhoes. Este projecto pareceu desagradar : alguns acha vam-lhe um odioso sabor iberico . . . Mas a salvacão da peninsula era uma republica federativa t E além d'isso, para fazer a republica, era necessario dinheiro e armas D'onde haviam de vir Da Hespanha !
e— Nada d'hespanhoes, nada d'hespanhoes !
— Hespanholas, sim — disse um gracejador.
O tumulto que ge levantara foi interrompido pelo secretario, que veio dizer :
— Oh, meninos, o Mathias está furioso ! Vocês fazem aqui uma algazarra que se ouve lá dentro . . O homem está a acabar . . . Pelo amor de Deus, venham.
Arthur que temia o descontentamento do Mathias foi retomar a sua cadeira O homem feio espalhava flores de eloquencia sobre os tumulos, lado a lado, dos quatro sargentos de La Rochelle.
Pouco a pouco os republicanos entravam — e, subitamente, o homem feio sentou-se.
Houve um rumor d'allivio, largamente respirado. Alguns tomavam o chapéu : eram onze e meia, que diabo !
Mas Mathias fez retinir a campainha :
— Consultarei a assembleia sobre a proposta que no fim do seu notavel trabalho o nosso illustre concidadão — e indicou o homem feio — acaba de fazer.
Foi um espanto. Que proposta . . Ninguem percebera ! Olhares interrogavam, hombros encolhiam-se.
Mathias, então, explicou :
— O nosso amigo propõe que se pendurem nas paredes do Club os retratos de todos os Martyres da Liberdade, desde os tempos mythologicos até . . . — Pareceu um momento interrogar a memoria : — perdão, snr. Esqueira, até . . .
O homem feio recitou d'um folego :
— Joaquim Vicente da Costa Esqueira, morto nas enxovias d'Almada, á machadada, pelas suas idéas jacobinas. Era meu tio.
Uma gargalhada correu pelas cadeiras. O velho Inilitar que parecia admirar o homem feio, rugiu : mais decencia ! E Mathias, severo :
— Acho a hilaridade inopportuna . , .
O homem feio julgou de certo do seu dever in dignar-se, e erguendo-se com solemnidade :
—É estranho que cause riso a homens liberaes um parente meu que morreu pela liberdade !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.