Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Era o Barrolo. Sem desmontar, sem surpresa ante a aparição do Barrolo, Gonçalo atirou logo para a varanda a história da bulha, tumultuosamente. Um malandro que o insultara... Depois outro, que desfechou a caçadeira... E ambos derribados sob as patas da égua, numa poça de sangue...

O Barrolo despegou da varanda - e noutro relance, investia pelo pátio, com os curtos braços a boiar, enfiado. Mas então? mas então?... E Gonçalo, desmontando, trêmulo agora do cansaço e da emoção, esmiuçou mais lances... Na estrada de Ramilde! Um valentão que o injuriou! A esse rasgara a boca, decepara a orelha... Depois o outro, um rapazola, desfecha uma carabina... Ele corre, tão vivamente o colhe com uma cutilada que o estira, para cima duma pedra, como morto...

- Uma cutilada?

- Com este chicote, Barrolo! Arma terrível!... Bem dizia o Titó!... Estou perdido se não levo estechicote.

Esgazeado, Barrolo remirava o chicote. Sim, com efeito ainda manchado de sangue. - Então Gonçalo atentou no chicote, no sangue... Sangue de gente! Sangue fresco, que ele arrancara.... E por entre o seu orgulho, uma piedade passou que o empalideceu:

- Que desgraça, vejam que desgraça!

Esquadrinhou vivamente o fato, as botas, no horror de nódoas de sangue, que o salpicassem. Sim, santo Deus! sangue na polaina!... E imediatamente ansiou por se despir, se lavar - galgou a escada, com o Barrolo que enxugava o suor, balbuciava: - "Ora uma dessas! E de repente! Assim na estrada' Mas no corredor, subindo numa carreira da cozinha, apareceu Gracinha, pálida, com a Rosa atrás, que enterrava os dedos entre o lenço e o cabelo num pavor mudo.

- Que foi, Gonçalo? Jesus, que foi?!

Então, encontrando Gracinha junto dele, na Torre, nesse momento magnífico do seu orgulho, depois de tão rijo perigo vencido, Gonçalo esqueceu o André, o Mirante, as sombrias humilhações, e no abraço em que a colheu, nos fortes beijos que atirou à face querida, todo o seu amuo se fundiu em ternura. Com ela ainda chegada ao coração, suspirou de leve, como uma criança cansada. Depois apertando as duas pobres mãos trêmulas, com um lento, enternecido sorriso, enquanto os olhos se lhe umedeciam de confusa emoção, de confusa alegria:

- Pois foi o diabo, filha! Uma desordem horrível, eu que sou tão pacato! imagina tu...

E pelo corredor recomeçou para Gracinha, que arfava, e para a Rosa, estarrecida, a história do encontro, e o sujo ultraje, o tiro que falhara e os malandros lacerados a chicote, e o velho marchando como um cativo, a gemer pela estrada de Ramilde. Apertando o peito, num desmaio, Gracinha murmurou:

- Ai, Gonçalo! E se um dos homens estivesse morto!

O Barrolo, mais vermelho que uma peônia, berrou logo que tais malandros mereciam ricamente a morte! E mesmo feridos, ainda necessitavam castigo tremendo de África! O Gouveia! era necessário mandar a Vila-Clara, avisar o Gouveia!... Mas largas passadas ávidas abalaram o soalho - e foi o Bento, que se ergueu diante de Gonçalo, bracejando numa ânsia:

- Então, Sr. Doutor?... Diz que uma grande desordem!

E à porta do escritório, onde todos pararam, novamente atentos, a história recomeçou, especialmente para o Bento, que a bebia, num lento riso de gosto, crescendo, inchando, com os olhinhos úmidos a reluzir, como se também triunfasse. Por fim, triunfou, com estrondo:

- Foi o chicote, Sr. Doutor! O que serviu ao Sr. Doutor foi o chicote que eu lhe dei!

Era verdade. E Gonçalo, comovido, abraçou o velho aio, que numa excitação, gritava para a Rosa, para Gracinha, para o Barrolo:

- O Sr. Doutor deu cabo deles!... Aquele chicote mata um homem!... Os malvados estãomortos!... E foi o chicote! Foi o chicote que eu dei ao Sr. Doutor!

Mas Gonçalo reclamava água quente para se lavar da poeira, do suor, do sangue... E o Bento correu, berrando ainda pelo corredor! depois pelas escadas da cozinha - "que fora o chicote! o chicote, que ele dera ao Sr. Doutor!" Gonçalo entrara no quarto, acompanhado pelo Barrolo. E pousou o chapéu sobre o mármore da cômoda, com um imenso ah consolado! Era o consolo imenso de se encontrar, depois de tão violenta manhã, entre as doces coisas costumadas, pisando o seu velho tapete azul, roçando o leito de pau-preto em que nascera, respirando pelas vidraças abertas, onde as ramagens familiares das faias se empurravam na aragem para o saudar. Com que gosto se acercou do espelho de colunas douradas, se mirou e se remirou, como a um Gonçalo novo e tão melhorado, que nos ombros reconhecia mais largueza, e até no bigode um arquear mais crespo.

E foi ao arredar do espelho, topando com o Barrolo, que subitamente despertou numa curiosidade imensa:

- Mas, ó Barrolo, como é que vos encontro esta manhã na Torre?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...104105106107108...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →