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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

No dia 1.° de março, precisamente na hora em que outra chuva passageira e forte caía sobre a tropa desabrigada, estrugiram as notas de um alarma. O inimigo certo aproveitara o ensejo para sobressaltar os invasores, ligando-se ao furor dos elementos e surgindo naquele chuveiro, de improviso, armas disparadas no fragor da trovoada que abalava a altura...

Correndo e caindo, resvalando no chão escorregadio e encharcado; esbarrando-se em carreiras cruzadas sob o fustigar das bátegas, oficiais e praças procuravam a formatura impossível, vestindo-se, apresilhando cinturões e talins, armando-se às carreiras; surdos às discordes vozes de comando; alinhando seções e companhias ao acaso, num tumulto. E daquele enredamento de fileiras rompeu

aforradamente, de arremesso, um cavaleiro isolado, sem ordenanças, precipitando-se a galope entre os soldados tontos, e lançando-se pela estrada, na direção provável do inimigo, mal alcançado pelo engenheiro militar Domingos Leite.

Era o coronel Moreira César.

Felizmente o inimigo imaginário, a quem ia entregar-se, procurando-o naquela arremetida inútil, era um comboio de gêneros enviados por um fazendeiro amigo, das cercanias .

Tirante este incidente o dia passou em completa paz, tendo vindo à tarde um correio de Monte Santo e cavalos para o esquadrão que até ali viajara em muares imprestáveis.

E, na alta madrugada no dia 2, os batalhões marcharam para o Angico onde chegaram às 11 horas da manhã, acampando dentro do grande curral do sítio em abandono.

Estava assente o plano definitivo da rota, adrede concebido de modo a diminuir o esfalfamento das marchas forçadas anteriores: descansando todo o resto do dia no rancho do Vigário a tropa abalaria, a 3, para o Angico, andando apenas uns oito quilômetros, e ali, novamente descansando, pernoitaria. Decampando a 4, iria diretamente sobre Canudos, depois de caminhar pouco mais de légua e meia. Como estavam em pleno território inimigo, tomaram-se dispositivos para garantir o acampamento, rodeando-o de piquetes e sentinelas circulares.

O coronel César internou-se na caatinga próxima, onde mandou armar a sua barraca. Ali, não ocultou aos chefes dos corpos a segurança absoluta na vitória. Apresentaram-lhe vários alvitres atinentes a rodearem de maiores resguardos a investida, um dos quais, aventado pelo comandante do 7.°, impunha a modificação preliminar da ordem até então adotada na marcha. Sugeria a divisão em duas, da coluna até então unida, destinando-se uma forte vanguarda para o reconhecimento e o primeiro combate; entrando a outra na ação, como reforço. Desse modo, se por qualquer circunstância se verificassem poderosos os recursos do adversário, tornar-se-ia factível um recuo em ordem para Monte Santo, onde se reorganizariam, aumentadas as forças.

Contra o que era de esperar, o chefe expedicionário não desadorou o alvitre.

A tropa prosseguiria a 3, pelo amanhecer, adstrita a um plano lucidamente traçado. Em marcha para o Angico

Entretanto ao marchar para o Angico levava uma ordem que era a mesma da partida do Cumbe: na frente um piquete de exploradores montados; um guia, Manuel Rosendo, experimentado e bravo, e a comissão de engenharia; uma companhia de atiradores do 7.°, comandada pelo tenente Figueira; a ala direita do 7.° com o major Cunha Matos, marchando de costado, levando no centro o respectivo comboio de munições; 1.ª a Divisão do 2.° Regimento, sob a imediata direção de Salomão da Rocha; ala esquerda do 7.°, dirigida pelo capitão Alberto Gavião Pereira Pinto; 2 a Divisão de Artilharia, do 1.° tenente Marcos Pradel de Azambuja; ala direita do 9.°, sob o mando do coronel Tamarindo, separada da esquerda, dirigida pelo capitão Felipe Simões, pelo respectivo comboio.

À retaguarda o corpo de saúde; contingentes do 16.°, do capitão Quirino Vilarim; e o comboio geral guardado pela polícia baiana.

Por último a cavalaria. O coronel César, na vanguarda, ia entre a companhia de atiradores e a ala direita do 7.°.

Tinham partido às cinco horas da manhã. Alcançavam a região característica dos arredores de Canudos: fortemente riçada de serranias vestidas de vegetação raquítica, de cardos e bromélias; recortada de regatos derivando em torcicolos — num crescente enrugamento da terra cada vez mais adversa, onde a vinda recente das chuvas ainda não estendera a vestimenta efêmera da flora revivente, velando-lhe os pedroiços e os algares.

(continua...)

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