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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amélia pousou nele longamente os seus belos olhos umedecidos de ternura.

As suas mãos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josefa apareceu, encolhida no seu xale. O mano tinha adormecido. E ela estava que não se podia ter nas pernas. Ai, aqueles abalos arrasavam-lhe a saúde! Acendera duas velas a S. Joaquim, e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Saúde. Era a segunda aquele ano, por causa da dor do mano. E Nossa Senhora não lhe tinha faltado...

- Nunca falta a quem a implora com fé, minha senhora, disse com unção o padre Amaro.

O alto relógio de armário bateu então cavamente oito horas. Amélia falou outra vez no cuidado em que estava pela mamã... De mais a mais ia- se a fazer tão tarde...

- E é que quando eu sai estava a chuviscar, disse Amaro.

Amélia correu à janela, inquieta. O lajedo defronte, debaixo do candeeiro, reluzia muito molhado. O céu estava tenebroso.

- Jesus, vamos ter uma noite de água!

D. Josefa estava aflita com o contratempo; mas a Amélia bem via, ela agora não podia despegar de casa; a Gertrudes fora ao doutor; naturalmente não o encontrara; andava a procurá-lo de casa em casa, quem sabe quando viria...

O pároco então lembrou que a Dionísia (que viera com ele e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a Sra. D. Amélia. Eram dois passos, não havia ninguém pelas ruas. Ele mesmo iria com elas até à esquina da Praça... Mas deviam apressar-se que ia cair água!

D. Josefa foi logo buscar um guarda-chuva para Amélia. Recomendou-lhe muito que contasse à mamã o que tinha sucedido. Mas que não se afligisse ela, que o mano estava melhor...

- E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada. Diz-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dor não deu tempo para nada!

- Sim, lá direi. Boa noite.

Ao abrirem a porta a chuva caía grossa. Amélia então quis esperar. Mas o pároco, apressado, puxou-a pelo braço:

- Não vale nada, não vale nada!

Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guarda-chuva, com a Dionísia ao lado, muito calada, de xale pela cabeça. Todas as janelas estavam apagadas; no silêncio as goteiras cantavam de enxurrão.

- Jesus, que noite! disse Amélia. Vai-se-me a perder o vestido.

Estavam então na Rua das Sousas.

- É que agora cai a cântaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor é entrar no pátio de minha casa e esperar um bocado...

- Não, não! acudiu Amélia.

- Tolices! exclamou ele impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido... É um instante, é um aguaceiro. Para aquele lado, vê, está a aliviar. Vai passar... É uma tolice... A mamã, se a visse aparecer debaixo duma carga de água, zangava-se, e com razão!

- Não, não!

Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, empurrando Amélia de levei - É um instante, vai passar, entre...

E ali ficaram, calados, no pátio escuro, olhando as cordas de água que reluziam à luz do candeeiro defronte. Amélia estava toda atarantada. A negrura do pátio e o silêncio assustavam-na; mas parecia-lhe delicioso estar assim naquela escuridão, ao pé dele, ignorada de todos... Insensivelmente atraída, roçava-se-lhe pelo ombro; e recuava logo, inquieta de ouvir a sua respiração tão agitada, de o sentir tão junto das saias. Percebia por trás, sem a ver, a escada que levava ao quarto dele; e tinha um desejo imenso de lhe ir ver, acima, os seus móveis, os seus arranjos... A presença da Dionísia, encolhida contra a porta e muito calada, embaraçava-a; todavia a cada momento voltava os olhos para ela, receando que desaparecesse, se sumisse na negrura do pátio ou da noite...

Amaro então começou a bater com os pés no chão, a esfregar as mãos, arrepiado.

- Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lajes estão regeladas. Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...

- Não, não! disse ela.

- Pieguices! Até a mamã se havia de zangar... Vá, Dionísia, acenda luz em cima.

A matrona imediatamente galgou os degraus.

Ele então, muito baixo, tomando o braço de Amélia:

- Por que não? Que pensas tu? É uma pieguice. É enquanto não passa o aguaceiro. Dize...

Ela não respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mão sobre o ombro, sobre o peito, apertando-lho, acariciando a seda. Toda ela estremeceu. E foi-o enfim seguindo pela escada, como tonta, com as orelhas a arder, tropeçando a cada degrau na roda do vestido.

- Entra para aí, é o quarto, disse-lhe ao ouvido.

Correu à cozinha. Dionísia acendia a vela.

- Minha Dionísia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina Amélia. É um caso muito sério... Volta daqui a meia hora. Toma! meteu-lhe três placas na mão.

A Dionísia descalçou os sapatos, desceu em pontas de pés e fechou- se na loja do carvão.

(continua...)

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