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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Mas o Malachias erguera-se logo e com gestos lentos, molles, gelatinosos, começou a fallar d'um modo tortuoso, empastado : dizia que era republicano, que respeitava todo o mundo, que quantos mais membros melhor . . . —E demorava-se, passava as longas mãos lividaa e magras pela face sem barba, oscilava com a cabeça : — elle não queria pôr em duvida as convicções dos cavalheiros admittidos, mas . . . Porque emfim era necessaxio cautela

Longe d'elle insinua! cousa alguma . . Todavia e— Acabe, homem — gritaram-lhe, impacientes da voz, da hesitação molle, dos gestos frouxos.

— A questão é esta — disse por fim — estamos

ou não estamos nós aqui a conspirar contra o governo 'l Ora bem. Sim, digo eu, isto não é para offender, mas emfim Sim, digo eu . . . Quem nos diz a nós . . . Quem nos diz a nós — repetiu, espalmando os cinco dedos sobre o peito concavo : — quem nos diz a nós . . , que não ha pessoas que vêm aqui para escutar, para espiar

Jacome Nazareno deu um pulo :

— Isso é insinuar alguma cousa a respeito do meu amigo — E indicava Arthur que escutava, esearlate, immovel.

O mystico saltou, com duas passadas, para o meio da sala e com a voz tremula, agitando dous enormes braços magros :

— Cidadãos, é triste que depois de toda uma vida d'estudo e dedicação á Democracia, no dia mesmo em que me venho reunir aos camaradas para um fim de justiça, me veja apontado como um espião — eu ! —E batia com os dous punhos freneticamente no peito.

O sujo Malac,hias protestava, levando as mãos á cabeça :

Pelo amor de Deus, o que ahi vae ! Ahi está o snr. Falcão com as suas exager'ações e o snr. Nazareno com o seu genio. Eu nic disse . . . eu não disse , . . Eu, o que queria dizer, é que era necessario não fazer as cousas a trochemoche. É necessario mais solemnidade . , . Porque é que se

A

não ha-de exigir aos que são admittidos o juramento

— Sobre um craneo ! — soltou Gilberto.

Houve risadas, Muito bem ! E Gilberto ergaeu-se :

— Peço a palavra. Hão-de notar que é sempre do snr. Malachias que sahem as idéas comicas sobre a symbolica do Club : foi elle que ha tempos reclamou a senha ; hoje quer o juramento ; ámanhã ha-de exigir o subterranéo ; depois, em logar do gaz, a tocha ! A democracia do snr. Malachias pertence á Rua dos Condes. Quanto ao sor. Falcão, são bem conhecidas as suas idéas, o seu caracter, os seus artigos na Evolução, a sua vida — Apoiado ! Apoiado !

Nazareno erguera-se :

— E com respeito ao snr. Corvello, creio que é inutil affirmar a sinceridade das suas crenças, o seu odio intransigente á sociedade conservadora . e .

— Apoiado ! Apoiado ! Está acabado isso . , . ! Malachias curvou-se, disse ainda :

— Eu, com a minha pequena experiencia, sem, pre tenho visto exigir-se o juramentozinhn Lá fóra é o mesmo . . . Mas emfim, se os sabios não querem . . . Eu, era para o futuro, mas emfim . . . eh! eh ! eh I

Em redor puxavam-lhe pelas abas do paletot ; elle sentou-se, resmungando, mas erguendo-se logo com a elasticidade d'uma mola, recomeçou na sua voz irritante que punha comichões no sangue :

— Eu pego perdão de voltar á carga, mas emfim . . . para dirigir uma pergunta á mesa . . . Queria saber se a subscripção de mil réis por cabeça, para as obras da sala, foi excedida ou se ha um saldo E se ha um deficit, quem responde . . . Sim, n'estas questõezinhas de dinheiro . . a Eu não quero offender —E enterrava a cabeça nos hombros, com um gesto torcido dos braços : — Mas

emfim ; . •

Mathias disse com seccura :

— As contas serão apresentadas, examinadas e discutidas. A pergunta é inopportuna e mal formulada.

Malachias teve o seu riso casquinado :

— Eu era p'ra saber . , . Gosto de saber . , . Eh !

E ficou sentado, passando pelo queixo os longos dedos magrissimos.

Tmmediatamente, um homem d'edade, muito feio, com uma baxba de pellos grisalhos e raros, ergueu-se. com um caderno de papel na mão. Escar rou e com uma voz lenta, dormente, um pouco cava:

— Eu pensei que n'este dia de inauguração, seria conveniente lêr algumas paginas, que puzessem deante do espirito de todos as phases que tem atravessado a Liberdade. Se me permittem E

vendo Mathias abaixar a. cabeça em consentimento, o homem feio abriu o caderno, pigarreou, e comegou a lêr : Se remontarmos aos tempos quasi mythologicos, encontramos o primeiro martyr da liberdado, pregado sobre um rochedo, e tendo o flanco devorado pelo bico de bronze d'um incansavel abutre

Havia em redor um vago pasmo : o que era Examinava-se o cadern.o espesso, azul, cosido com guita. O quê ! Ia lêr aquillo tudo



(continua...)

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