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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Gonçalo sentiu a palidez que o cobriu - e todo o sangue do coração, num tumulto confuso, que era de medo e de raiva. Um novo ultraje, do mesmo homem, sem provocação! Apertou os joelhos no selim para galopar. E a tremer, num esforço que o engasgava:

- Você é muito atrevido! E já pela terceira vez! Eu não sou homem para levantar desordensnuma escada... Mas fique certo que o conheço, e que não escapa sem lição.

Imediatamente, o outro agarrou a um cajado curto e saltou à estrada, afrontando a égua, com as suíças erguidas, um riso de imenso desafio:

- Então cá estou! Venha agora a lição... E para diante é que você já não passa, seu Ramires demerd...

Uma névoa turvou os olhos esgazeados do Fidalgo. E de repente, num inconsciente arranque, como levado por uma furiosa rajada de orgulho e força, que se desencadeava do fundo do seu ser, gritou, atirou a fina égua num galão terrível! E nem compreendeu! O cajado sarilhara! A égua empinava, numa cabeçada furiosa! E Gonçalo entreviu a mão do homem, escura, imensa, que empolgava a camba do freio.

Então, erguido nos estribos, por sobre a imensa mão, despediu uma vergastada do chicote silvante de cavalo-marinho, colhendo o latagão na face, de lado, num golpe tão vivo da aresta aguda que a orelha pendeu, despegada, num borbotar de sangue. Com um berro o homem recuou, cambaleando. Gonçalo galgou sobre ele, noutro arremesso, com outra fulgurante chicotada, que o apanhou pela boca, lhe rasgou a boca, decerto lhe espedaçou dentes, o atirou, urrando, para o chão. As patas da égua machucavam as grossas coxas estendidas - e, debruçado, Gonçalo ainda vergastou, cortou desesperadamente face, pescoço, até que o corpo jazeu mole e como morto, com jorros de sangue escuro ensopando a camisa.

Um tiro atroou o terreiro! E Gonçalo, com um salto no selim, avistou o rapazote moreno ainda com a espingarda erguida, a fumegar, mas já hesitando aterrado.

- Ah, cão!

Lançou a égua, com o chicote alto - o rapaz, espavorido, corria lentamente através do terreiro, para saltar o valado, escapar para as várzeas ceifadas!

- Ah cão, ah cão! - berrava Gonçalo. Estonteado, o rapaz tropeçara numa viga solta. Mas já seendireitava, largava, quando o Fidalgo o alcançou com uma cutilada do chicote no pescoço, logo alagado de sangue. Estendendo as mãos incertas, ainda cambaleou, abateu, estalou contra a aresta dum pilar, a cabeça mais sangue jorrou. Então Gonçalo, a arquejar, deteve a égua. Ambos os homens jaziam imóveis! Santo Deus! Mortos? De ambos corria o sangue sobre a terra seca. O Fidalgo da Torre sentia uma alegria brutal. Mas um grito espantado soou do lado do quinteiro.

- Ai que mataram o meu rapaz!

Era um velho que corria da cancela, numa carreira agachada, rente com a sebe, para a porta da casa. Tão certeiramente o Fidalgo arremessou a égua, para o deter - que o velho esbarrou contra o peitoril que arfava coberto de suor e de espuma. E ante o inquieto animal escarvando, e Gonçalo alçado nos estribos, com a face chamejante, o chicote a descer - o velho, num terror, desabou sobre os joelhos, gritou ansiadamente:

- Ai, não me faça mal, meu Fidalgo, por alma de seu pai Ramires.

Gonçalo ainda o manteve assim um momento, suplicante, a tremer, sob o justiceiro faiscar dos seus alhos - e gozava soberbamente aquelas calosas mãos que se erguiam para a sua misericórdia, invocavam o nome de Ramires, de novo temido, repossuído do seu prestígio heróico. Depois, recuando a égua:

- Esse malandro do rapazola desfechou a caçadeira!... Você também não tem boa cara! Que iavocê correndo para casa? Buscar outra espingarda?

O velho alargou desesperadamente os braços, oferecia o peito, em testemunho da sua verdade:

- Oh meu Fidalgo, não tenho em casa nem um cajado!... Assim Deus me ajude e me salve orapaz!

Mas Gonçalo desconfiava. Quando descesse agora pela estrada de Ramilde, bem poderia o velho correr ao casebre, agarrar outra caçadeira, desfechar traiçoeiramente. E então com a presteza de espírito que a luta afiara concebeu contra qualquer emboscada um ardil seguro E até num relance sorriu recordando "traças de guerra", de D. Garcia Viegas, o Sabedor.

- Marche lá diante de mim, sempre a direito, pela estrada!

O velho tardou, sem se erguer, aterrado. E batia com as grossas mãos nas coxas, numa ânsia que o engasgava:

- Oh meu Fidalgo, oh meu Fidalgo! mas deixar assim o rapaz sem acordo?...

- O rapaz está só atordoado, já se mexeu... E o outro malandro também... Marche você!

(continua...)

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