Por Coelho Neto (1890)
— E eu! Pensas que tenho estado inerte? Já fiz para cima de vinte discursos. Estive com o Bivar, está sem voz. Mas que belo, heim? — exclamou o poeta com entono. Que vitória...! A conquista do talento, heim? Decididamente não há arma como esta! — e empunhou uma caneta com orgulho. Sim, senhor! Arrastou uma cadeira, sentou-se e, diante das tiras, exclamou de novo: Bela coisa!
— Pois sim, pois sim, mas escreve.
— Que diabo queres tu que eu escreva?
— Escreve sobre isso mesmo — a conquista do talento.
— Isso dá um artigo de duas ou três colunas. Queres?
— Não, filho; sê sóbrio, estamos ameaçados de greve. Sê breve e forte.
— Pois sim. E pôs-se a escrever balançando a perna. De repente, porém, uma voz rouca bradou na rua: "Viva José do Patrocínio! Viva Joaquim Nabuco!" Anselmo correu à janela, palpitante. Estava uma multidão diante do escritório e um mulato gordo, esbaforido, atirando o chapéu ao ar, fazia enorme algazarra. Anselmo desceu e, rompendo o povo, chegou ao homem que logo avançou, rouco, encharcado de suor e apertou-o nos braços, gritando com fúria: "Viva José do Patrocínio! Viva a Cidade do Rio! Primeiro jornal do mundo!" E, sem mais, arregaçando as mangas do casaco surrado, subiu para o balcão e, com grande esforço, arrancando as palavras, pôs-se a falar:
"Cidadãos, não há mais escravos no Brasil. Aqui agora todo o mundo é livre, não há negro nem branco, há brasileiros..."
Rugiram: Apoiado! E o orador, entusiasmado com o acorçoamento do povo, pôs-se nas pontas dos pés e, cada vez mais rouco, continuou:
"Ontem era o castigo: era a mãe arrancada ao filho, o filho arrancado à mãe, uma patifaria, uma pouca-vergonha...! Súcia de vagabundos que queriam viver à custa dos desgraçados. Pois agora que vão trabalhar... Cidadãos, a nossa pátria estava manchada... (Apoiado!...) a nossa pátria estava manchada, mas de hoje em diante, podemos dizer com orgulho que somos brasileiros, porque já não há escravos em nossa terra. Viva José do Patrocínio...! Viva Joaquim Nabuco...!" E saltou do balcão.
Dando com os olhos em Anselmo o mulato adiantou-se e, posto que o secretário não o conhecesse, não se revoltou com a intimidade com que foi tratado:
— Passa um cigarro. Ah! Não imaginas como estou: não tenho voz, a camisa está como uma papa, mas também ontem berrei como um danado. Que pensas? Eu cá não conto com desgraça, sou homem! Se grimparem comigo, ahn!
Mas passou, hein? E atirou uma palmada ao ombro de Anselmo.
— Por quantos votos? — perguntou um sujeito magro.
— Sei lá de votos! Sei que passou e se não passasse voava a quitanda: os cabras estavam dispostos. Meti lá a minha gente e aquilo era só um grito.
— E o José?
— Que José?
— O Patrocínio...
— Sei lá. O cabra fica hoje sem costela. Ontem andava no ar que nem o Blondin. A gente só via a cabeça e os bracinhos do preto... Mas é homem, deixem lá! Homem mesmo! E sacudiu-se urrando: Viva o grande abolicionista José Carlos do Patrocínio!
O povo correspondeu com delírio.
— Qual! Quando eu digo... Há aí alguma coisa que se beba? Estou zarro. Viva Joaquim Nabuco! Diabo! Esta gente não presta. Vou ver a minha cabralhada, quero fazer hoje uns bonitos nesta cidade. Olhe! Eu não tenho nada com isso, sou mulato, mas nunca fui escravo, é preciso que se note; mas sou brasileiro, não queria a minha pátria manchada, ahn! Isso é que é.
Luiz Moraes, tendo concluído o artigo, despediu-se para almoçar e Anselmo esquivava-se ao mulato gordo quando Montezuma, amarrotado e gotejante, abrindo o grupo dos populares, apareceu no escritório com gestos largos e um embrulho:
— Então, Montezuma?
— Consummatum est. Patrocínio está imortal e aqui está o dinheiro. Suei! Agora, antes de fazer o pagamento, eu devia desafivelar uma descompostura das minhas, porque o procedimento dos tais senhores tipógrafos não tem classificação. Vamos lá para cima contar isto. E você, homem, disse, dirigindo-se ao gerente, sempre acabrunhado, mova-se, trate de arranjar algumas bandeiras e flores. É preciso que o jornal apareça digno.
— Mas como, senhor Montezuma? Tenho seiscentos réis em caixa. E uma desgraça... Mas que hei de fazer?
— Levante-se, tenha energia. Eu, no Rio da Prata, fiquei uma vez sem um níquel, pois, meu amigo, não descorçoei: pus-me em campo, furando a vida, e, à tarde, estava com o bolso cheio de duros e rodando em Palermo. Mova-se, vá aqui ao Alves sirgueiro e peça umas bandeiras, alugue-as, compre-as; vá depois à Rosenwald e diga-lhe, em meu nome, que venha enfeitar a sala de trabalho do José.
— Bandeiras de que país, senhor Montezuma?
— De todo o mundo: brasileiras, portuguesas, russas, africanas, chinesas, alemães, as que encontrar. Mas ande!... Mova-se!
— Vou calçar as botinas.
— Que botinas? Pois você está ao balcão sem botinas?
— Sim, senhor, por causa dos calos.
— Onde foi o Patrocínio descobrir este homem? Antes de ser gerente que diabo era você...?
— Condutor de bonde.
— Ahn! E querem que este jornal ande para diante com um condutor ao balcão! Pois sim! Vamos lá para cima.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.