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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Estava já rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaquetão de flanela e o guardanapo atado ao pescoço.

- Boa gota, repetiu, deste não provou hoje você nas galhetas.

- Credo, mano! exclamou D. Josefa com a boca cheia de fios de aletria, muito escandalizada da irreverência.

O cônego encolheu os ombros com desprezo.

- O credo é para a missa! Esta pretensão de se meter sempre em questões que não percebe! Pois fique sabendo que é duma grande importância a questão da qualidade do vinho, na missa. É que é necessário que o vinho seja bom...

- Concorre para a dignidade do santo sacrifício, disse o pároco muito sério, fazendo uma carícia de joelho a Amélia.

- E não é só isso, disse o cônego tomando logo o tom de pedagogo. É que o vinho, quando não é bom ou tem ingredientes, deixa um depósito nas galhetas; e, se o sacristão não é cuidadoso e não as limpa, as galhetas ganham um cheiro péssimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, não está prevenido e faz-lhe uma careta. Ora aí tem a senhora!

E deu um forte chupão ao cálice. Mas estava falador nessa noite, e depois de arrotar devagar, interpelou de novo D. Josefa, assombrada de tanta ciência.

- E diga-me lá então a senhora, já que é tão doutora. O vinho, no divino sacrifício, deve ser branco ou tinto?

D. Josefa parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.

- Emende a menina, mugiu o cônego de dedo em riste para Amélia.

Ela recusou-se, com um risinho. Como não era sacristão, não sabia...

- Emende o senhor pároco!

Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, então devia ser branco...

- E por quê?

Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.

- E por quê? continuava o cônego, pedante e roncão. Não sabia.

- Porque Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pela primeira vez consagrou, fê-lo com vinho branco. E a razão é muito simples: é porque na Judéia nesse tempo, como é notório, não se fabricava vinho tinto... Repita- me a senhora a aletria, faça favor.

Então, a propósito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristão. Nessa manhã antes de se paramentar - justamente quando entrara o senhor cônego na sacristia - acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro lugar dava-as a lavar a uma Antônia que vivia amancebada com um carpinteiro, em grande escândalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as tão enxovalhadas que era um desacato usá-las no divino sacrifício...

- Ai, mande-mas a mim, senhor pároco, mande-mas a mim, acudiu D. Josefa. Dou-as à minha lavadeira, que é pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. Ai, até era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e até se podia benzer o ferro...

Mas o cônego (que positivamente estava naquela noite duma loquacidade copiosa) interrompeua, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:

- Ora a propósito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e colega, que cometeu hoje um erro de palmatória.

Amaro pareceu inquieto.

- Que erro, padre-mestre?

- Depois de se revestir, continuou o cônego pausadamente, já com os diáconos ao lado, quando fez a cortesia à imagem da sacristia, em lugar de fazer a cortesia profunda, fez só a meia cortesia.

- Alto lá, padre-mestre! exclamou o padre Amaro. É o texto da rubrica. Facta reverentia cruci, feita a reverência à cruz; isto é, a reverência simples, abaixar ligeiramente a cabeça...

E, para exemplificar, fez uma cortesia a D. Josefa que lhe sorriu toda, torcendo-se.

- Nego! exclamou formidavelmente o cônego que em sua casa, à sua mesa, punha de alto as suas opiniões. E nego com os meus autores. Eles aí vão! - e deixou-lhe cair em cima, como penedos de autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavônio.

Amaro afastara a cadeira, pusera-se em atitude de controvérsia, contente de poder, diante de Amélia, "enterrar" o cônego, mestre de teologia moral e um colosso de liturgia prática.

- Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...

- Alto, ladrão, bramiu o cônego. Castaldus é meu!

- Castaldus é meu, padre-mestre!

E encarniçaram-se, puxando cada um para si o venerável Castaldus e a autoridade da sua facúndia. D. Josefa pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amélia com a cara franzida de riso:

- Ai, que gostinho vê-los! Ai, que santos!

Amaro continuava, com gesto alto:

(continua...)

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