Por Eça de Queirós (1900)
- Com efeito, na Rússia parece que não faltam aventuras. Anda tudo a Chicote, diz o Século... Mas aventuras, Sr. Doutor, até a gente as encontra na estrada... Olhe! o paizinho de V. Exa., que Deus haja, foi lá embaixo diante do portão que teve a bulha com o Dr. Avelino da Riosa, e que lhe atirou a chicotada, e que levou com o punhal no braço...
Gonçalo calçava as luvas de anta, mirando o espelho:
- Pobre papá, coitado, também teve pouca sorte... E por chicote. ó Bento, dá cá àquele chicotede cavalo-marinho que tu ontem areaste. Parece que é uma boa arma.
Ao sair o portão, o Fidalgo da Torre meteu a égua, sem destino, num passo indolente, pela estrada costumada dos Bravais. Mas no Casal Novo, onde dois pequenos jogavam a bola debaixo das carvalheiras, pensou em visitar o Visconde de Rio-Manso. Certamente lhe consertaria os nervos a companhia de tão sereno e generoso velho. E, se ele o convidasse a almoçar, gastaria os seus cuidados visitando essa falada quinta da Varandinha e cortejando "o botão de Rosa".
Gonçalo recordava apenas confusamente que o terraço da Varandinha dominava uma estrada plantada de choupos, algures, entre o lugar da Cerda e a espalhada aldeia de Canta-Pedra. E tomou o caminho velho que desce das carvalheiras do Casal Novo, e penetra no vale, entre o cabeço de Avelã e as ruínas do Mosteiro de Ribadais, no solo histórico onde Lopo de Baião derrotara a mesnada de Lourenço Ramires... Ora enterrada entre valados, ora entre toscos muros de pedra solta, a vereda seguia sem beleza, e cansativa; mas as madressilvas nas sebes, por entre as amoras maduras, rescendiam; o fresco silêncio recebia mais frescura e graça dos frêmitos de asa que o roçavam; e tanto era o radiante azul nos céus serenos que um pouco elo seu rebrilho e serenidade se instilava na alma. Gonçalo, mais desanuviado, não se apressava; na Igreja dos Bravais, quando ele passara ao Casal Novo, batiam apenas as nove horas; e depois de costear um lameiro de erva magra parou a acender pachorrentamente um charuto, rente da velha ponte de pedra que galga o riacho das Donas. Quase seca pela estiagem, a água escura mal corria, sob as folhas largas dos nenúfares, por entre os juncais que a atulhavam. Adiante, à orla dum ervaçal, no abrigo duma moita de álamos, reluziam as pedras dum lavadouro. Na outra margem, dentro dum velho bote encalhado, um rapazito, uma rapariguinha conversavam profundamente, com dois molhos de alfazema esquecidos nos regaços. Gonçalo sorriu do idílio - depois teve uma surpresa descobrindo, no cunhal da ponte, rudemente entalhado, o seu Brasão de Armas, um Açor enorme, que alargava as garras ferozes. Talvez aquelas terras outrora pertencessem à Casa - ou alguns do seus avós benéficos construíra a ponte, sobre torrente então mais funda, para segurança dos homens e dos gados. Quem sabe se o avô Tructesindo, em memória piedosa de Lourenço Ramires, vencido e cativo nas margens daquela ribeira!
O caminho, para além da ponte, alteava entre campos ceifados. As medas lourejavam, pesadas e cheias, por aquele ano de fartura. Ao longe, dos telhados baixos dum lugarejo, vagarosos fumos subiam, logo desfeitos no radiante céu. E lentamente, como aqueles fumos distantes, Gonçalo sentia que todas as suas melancolias lhe escapavam da alma, se perdiam também no azul lustroso... Uma revoada de perdizes ergueu o vôo dentre o restolho. Gonçalo galopou sobre elas, gritando, sacudindo o seu forte chicote de cavalo-marinho, que zinia como uma fina lâmina.
Em breve o caminho torceu, costeando um souto de sobreiros, depois cavado entre silvados com largos pedregulhos aflorando na poeira - e ao fundo o sol faiscava sobre a cal fresca duma parede. Era uma casa térrea, com porta baixa entre duas janelas envidraçadas, remendos novos no telhado e um quinteiro que uma escura e intensa figueira assombreava. Numa esquina pegava um muro baixo de pedra solta, continuado por uma sebe, onde adiante uma velha cancela abria para a sombra duma ramada. Defronte, no vasto terreiro que se alargava, jaziam cantarias, uma pilha de traves; passava uma estrada, lisa e cuidada, que pareceu a Gonçalo a de Ramilde. Para além, até a um distante pinheiral, desciam chás e lameiros.
Sentado num banco, junto da porta, com uma espingarda encostada ao muro, um rapaz grosso, de barrete de lá verde, acariciava pensativamente o focinho dum perdigueiro. Gonçalo parou:
- Tem a bondade... Sabe por acaso qual é o bom caminho para a quinta do Sr. Visconde de RioManso, a Varandinha?
O rapazote ergueu a face morena, de buço leve, remexendo vagamente no carapuço.
- Para a quinta do Rio-Manso... Siga pela estrada até a pedreira, depois à esquerda a seguir,sempre rente da várzea...
Mas nesse instante assomava à porta um latagão de suíças louras em mangas de camisa, a cinta enfaixada em seda. E Gonçalo, com um sobressalto, reconheceu logo o caçador que o injuriara na estrada de Nacejas, o assobiara na venda do Pintainho. O homem relanceou superiormente o Fidalgo. Depois, com a mão encostada à ombreira, chasqueou o rapazote:
- Oh Manuel, que estás tu aí a ensinar o caminho, homem! Este caminho por aqui não é paraasnos!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.