Por Eça de Queirós (1875)
Quando as Quatro senhoras entraram, a igreja estava já cheia. Era uma missa cantada ao Santíssimo. E apesar de contrário ao rigor do ritual, por um costume diocesano (Que o bom Silvério, muito estrito na liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a Eucaristia, música de rabeca, violoncelo e flauta. O altar, muito ornado, com as relíquias expostas, destacava numa alvura festiva; dossel, frontal, paramentos dos missas eram brancos, com relevos de ouro desmaiado; nos vasos erguiam- se ramos piramidais de flores e folhagens brancas; os veludilhos decorativos, dispostos como velários, punham dos dois lados do tabernáculo a brancura de duas vastas asas desdobradas, lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiçais erguiam a suas chamas amarelas em trono até ao sacrário aberto, que mostrava de alto, engastada num rebrilhar de ouros vivos, a hóstia redonda e baça. Por toda a igreja apinhada corria uma sussurração lenta; aqui e além um catarro expectorava, uma criança choramingava; o ar adensava-se já dos hálitos juntos e de um cheiro de incenso; e do coro, onde as figuras dos músicos se moviam por trás dos braços dos rabecões e das estantes, vinha a cada momento um afinar gemido de rabeca, ou um pio de flautim. As quatro amigas tinham-se apenas acomodado junto ao altar-mor, quando os dois acólitos, um teso como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito nas mãos os dois castiçais consagrados; atrás o Pimenta vesgo, com uma sobrepeliz muito vasta para ele, lançando os seus sapatões em passadas pomposas, trazia o incensador de prata; depois sucessivamente, durante o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear dós livrinhos, apareceram os dois diáconos; e enfim, paramentado de branco, de olhos baixos e mãos postas, com aquele recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime a mansidão de Jesus marchando ao Calvário, entrou o padre Amaro - ainda vermelho da questão furiosa que tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa da lavagem das alvas.
E o coro imediatamente atacou o Intróito.
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Amélia passou a sua missa embevecida, pasmada para o pároco - que era, como dizia o cônego, "um grande artista para missas cantadas"; todo o cabido, todas as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que cavalheirismo nas saudações cerimoniosas aos diáconos! Como se prostrava bem diante do altar, aniquilado e escravizado, sentindo-se cinza, sentindo-se pó diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua corte e da sua família celeste! Mas era sobretudo admirável nas bênçãos; passava devagar as mãos sobre o altar como para apanhar, recolher a graça que ali caía do Cristo presente, e atirava-a depois com um gesto largo de caridade por toda a nave, por sobre o estendal de lenços brancos de cabeça, até ao fundo onde os homens do campo muito apertados, de varapau na mão, pasmavam para a cintilação do sacrário! Era então que Amélia o amava mais, pensando que aquelas mãos abençoadoras lhas apertava ela core paixão por baixo da mesa do quino: aquela voz, com que ele lhe chamava filhinha, recitava agora as orações inefáveis, e parecia-lhe melhor que o gemer das rabecas, revolvia-a mais que os graves do órgão! Imaginava com orgulho que todas as senhoras decerto o admiravam também; mas só tinha ciúmes, um ciúme de devota que sente os encantos do Céu, quando ele ficava diante do altar, na posição estática que manda o ritual, tão imóvel como se a sua alma se tivesse remontado longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensível. Preferia-o, por o sentir mais humano e mais acessível, quando, durante o Kyrie ou a leitura da Epistola, ele se sentava com os diáconos no banco de damasco vermelho; ela queria então atrair-lhe um olhar; mas o senhor pároco permanecia de olhos baixos, numa compostura modesta.
Amélia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada num sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabeça bem-feita, os paramentos dourados - e lembrava-se quando o vira a primeira vez descendo a escada da Rua da Misericórdia, com o seu cigarro na mão. Que romance se passara desde essa noite! Recordava o Morenal, o salto do valado, a cena da morte da titi, aquele beijo ao pé da lareira... Ai, como acabaria tudo aquilo? Queria então rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe à idéia o que o Libaninho nessa manhã dissera: "O senhor pároco tinha uma pelezinha tão branca como um arcanjo..." Devia-a ter decerto muito delicada, muito tenra... Um desejo intenso queimava-a: imaginava que era uma tentadora visitação do demônio, - e para a repelir arregalava os olhos para o sacrário e para o trono que o padre Amaro, cercado dos diáconos, incensava em semicírculos significando a Eternidade dos Louvores, enquanto o coro berrava o Ofertório... Depois ele mesmo, de pé, no segundo degrau do altar, de mãos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia ranger galhardamente as correntes de prata do turíbulo; um perfume de incenso derramava-se, como uma anunciação celeste; enevoava-se o sacrário sob os rolos alvos de fumo; e o pároco aparecia a Amélia transfigurado, quase divinizado!... Oh, adorava-o então! A igreja tremia ao clamor do órgão em pleno; de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a força; em cima, alçando-se entre os braços dos rabecões, o mestre da capela, no fogo da execução, brandia desesperadamente a sua batuta feita dum rolo de cantochão.
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Amélia saiu da igreja muito fatigada, muito pálida.
Ao jantar, em casa do cônego, a Sra. D. Josefa censurou-a repetidamente de "não dar palavra". Não falava, mas debaixo da mesa o seu pezinho não cessava de roçar, pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham acendido as velas; o cônego abrira uma garrafa, não do seu famoso duque de 1815, mas do "1847", para acompanhar a travessa de aletria que enchia o centro da mesa, com as iniciais do pároco desenhadas a canela; era, como explicara o cônego, "uma galantaria da mana ao convidado". Amaro fizera logo uma saúde com o 1847 "à digna dona da casa". Ela resplandecia, medonha no seu vestido de barege verde. O que sentia é que o jantar fosse tão mau... Que aquela Gertrudes estava-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato com macarrão!
- Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o pároco.
- São favores do senhor pároco. É porque eu lhe acudi a tempo... Mais uma colherzinha de aletria, senhor pároco.
- Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.
- Então para desgastar, vá mais esse copito do 47, disse o cônego.
Ele mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um ah de satisfação, e repoltreando-se:
- Boa gota! assim pode-se viver!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.