Por Eça de Queirós (1900)
Acordou muito cedo, com a enredada lembrança dum pesadelo em que falara a mortos - e, sem a preguiça que sempre o amolecia nos colchões, enfiou um roupão, escancarou as vidraças. Que formosa manhã! uma manhã dos fins de setembro, macia, lustrosa e fina; nem uma nuvem lhe desmanchava o vasto, o imaculado azul; e o sol já pousava nos arvoredos, nos outeiros distantes, com uma doçura outonal. Mas, apesar de lhe respirar alentadamente o brilho e a pureza, Gonçalo permaneceu toldado de sombras, das sombras da véspera, retardadas no seu espírito oprimido, como névoas em vale muito fundo. E foi ainda com um suspiro, arrastando tristonhamente as chinelas, que puxou o cordão da campainha. O Bento não tardou com a infusa da água quente para a barba. E acostumado ao alegre acordar do Fidalgo tanto estranhou aquele silencioso e enrugado mover pelo quarto, que desejou saber se o Sr. Doutor passara mal a noite...
- Pessimamente!
Bento declarou logo, com vivacidade e reprovação - que certamente fizera mal ao Sr. Doutor tanto cognac de moscatel. Cognac muito adocicado, muito excitante... Bom para o Sr. D. Antônio, homenzarrão pesado. Mas o Sr. Doutor, assim nervoso, nunca devia tocar naquele cognac. Ou então, meio cálice escasso.
Gonçalo ergueu a cabeça, na surpresa de encontrar logo ao começo do seu dia e tão flagrante aquele domínio que todos sobre ele se arrogavam - e de que tanto se lastimava, através de toda a amarga noite! Eis ai o Bento mandando - marcando a sua ração de cognac! E justamente o Bento insistia:
- O Sr. Doutor bebeu mais de três cálices. Assim não convém... Eu também tive culpa em nãotirar a garrafa...
Então, perante despotismo tão declarado, o Fidalgo da Torre teve uma brusca revolta:
- Homem, não dês tantas leis. Bebo o cognac que preciso e que quero!
Ao mesmo tempo, com a ponta dos dedos, experimentava a água na infusa:
- Esta água está morna! - exclamou logo. - Já me tenho fartado de dizer! Para a barba, precisosempre água a ferver.
O Bento, gravemente, mergulhou também o dedo na água:
- Pois esta água está quase a ferver... Nem para a barba se necessita água mais quente.
Gonçalo encarou o Bento com furor. O quê! mais objeções, mais leis!
- Pois vá imediatamente buscar outra água! Quando eu peço água quente, pretendo que venhaem cachão. Irra! tanta sentença!... Eu não quero moral, quero obediência!
O Bento considerou Gonçalo através dum espanto que lhe inchara a face. Depois, lentamente, com magoada dignidade, empurrou a porta, levando a infusa. E já Gonçalo se arrependia da sua violência. Coitado, não era culpa do Bento se a vida lhe andava a ele tão estragada e sacudida! Depois, em casa tão antiga, não destoava a tradição dos antigos aios. E o Bento com perfeito rigor lhes reproduzia a rabugice e a lealdade! Mas ascendência, e livre falar bem lhe cabiam bem os merecia por tão longa, tão provada dedicação...
O Bento, ainda vermelho e inchado, voltava com a infusa fumegante. E Gonçalo logo docemente, para o adoçar:
- Dia muito bonito, bem, Bento?
O velho rosnou, ainda amuado:
- Muito bonito.
Gonçalo ensaboava a face, rapidamente, na impaciência de reatar com o Bento, de lhe restabelecer a supremacia amorável. E por fim mais doce, quase humilde:
- Pois se achas o dia assim bonito, dou um passeio a cavalo antes do almoço. Que te parece?Talvez me faça bem aos nervos... Com efeito, aquele cognac não me convém... Então, Bento, faze o favor, grita aí ao Joaquim que me tenha a égua pronta imediatamente. Com certeza me acalma uma galopada... E no banho agora a água bem esperta, bem quente. Também me acalma a água quente. Por isso necessito sempre água bem quente, a ferver. Mas tu, com essas tuas velhas idéias... Pois todos os médicos o declaram. Para a saúde água quente, bem quente, a sessenta graus!
E depois do rápido banho, enquanto se vestia, abriu mais familiarmente ao velho aio a intimidade das suas tristezas:
- Ah! Bento, Bento, o que eu verdadeiramente precisava para me calmar, não era um passeio, era uma jornada... Trago a alma muito carregada, homem! Depois estou farto desta eterna VilaClara, da eterna Oliveira. Muito mexerico, muita deslealdade. Precisava terra grande, distração grande.
O Bento, já reconciliado, enternecido, lembrou que o Sr. Doutor brevemente, em Lisboa, encontraria uma linda distração, nas Cortes.
- Eu sei lá se vou às Cortes, homem! Não sei nada, tudo falha... Qual Lisboa!... O que eu necessito é uma viagem imensa, à Hungria, à Rússia, a terras onde haja aventuras.
O Bento sorriu superiormente daquela imaginação. E apresentando ao Fidalgo o jaquetão de velvetina cinzenta:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.