Por Eça de Queirós (1875)
A sala com efeito era toda ela uma imensa armazenagem de santaria e de bric-à-brac devoto ; sobre as duas cômodas de pau-preto com fechaduras de cobre apinhavam-se, sobre redomas, em peanhas, as Nossas Senhoras vestidas de seda azul, os Meninos Jesus frisados com o ventrezinho gordo e a mão abençoadora, os Santos Antônios no seu burel, os S. Sebastiões bem frechados, os S. Josés barbudos. Havia santos exóticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaça - S. Pascoal Bailão, S. Didàcio, S. Crisolo, S. Gorislano... Depois eram os bentinhos, os rosários de metal e de caroços de azeitonas, contas de cores, rendas amarelas de antigas alvas, corações de vidro escarlate, almofadinhas com J. M, entrelaçados a miçanga, ramos bentos, palmas de mártires, cartuchinhos de incenso. As paredes desapareciam forradas de estampas de Virgens de todas as devoções, - equilibradas sobre o orbe, enrodilhadas aos pés da cruz, traspassadas de espadas. Corações de onde gotejava sangue, corações de onde saia uma fogueira, corações de onde dardejavam raios; orações encaixilhadas para as festas particularmente amadas - o Casamento de Nossa Senhora, a Invenção da Santa Cruz, os Estigmas de S. Francisco, sobretudo o Parto da Santa Virgem, a mais devota, que vem pelas quatro têmporas. Sobre as mesas lamparinas acesas, para serem colocadas sem demora aos santos especiais, quando a boa senhora tivesse a sua ciática, ou que o catarro se assanhasse, ou lhe viessem as cãibras. Ela mesma, só ela, arrumava, espanejava, lustrava toda aquela santa população celeste, aquele arsenal beato, que era apenas suficiente para a salvação da sua alma e o alívio dos seus achaques. O seu grande cuidado era a colocação dos santos; alterava-a constantemente, porque às vezes, por exemplo, sentia que Santo Eleutério não gostava de estar ao pé de S. Justino, e ia então pendurá-lo a distância, numa companhia mais simpática ao santo. E distinguia-os (segundo os preceitos do ritual que o confessor lhe explicava), dando-lhes uma devoção graduada, e não tendo por S. José de segunda classe o respeito que sentia por S. José de primeira classe. Aquela riqueza era a inveja das amigas, a edificação dos curiosos, e fazia sempre dizer ao Libaninho quando a vinha visitar, abrangendo a sala num olhar langoroso: - Ai, filha, é o reininho dos Céus!
- Não é verdade, continuava a excelente senhora radiante, que ele aqui é que estava bem, o santinho do pároco? É como ter o Céu debaixo da mão!
As duas senhoras concordaram. Ela podia ter a sua casa arranjada com devoção, ela que era
rica...
- Não o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil-réis. Sem contar o que está no
relicário...
Ah, o famoso relicário de sândalo forrado de cetim! Tinha lá uma lascazinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Coroa, um farrapinho do cueiro do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume, entre as devotas, que coisas tão preciosas, de origem divina, deviam estar no sacrário da Sé. D. Maria da Assunção temendo que o senhor chantre soubesse daquele tesouro seráfico, só o mostrava às íntimas, misteriosamente. E o santo sacerdote, Que lho obtivera, fizera-a jurar sobre o Evangelho de não revelar a procedência "para evitar falatórios".
A S. Joaneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.
- Que relíquia, que relíquia! murmurava.
E D. Maria da Assunção muito baixo:
- Não há melhor. Trinta mil-réis me custou... Mas dava sessenta, mas dava cem! mas dava tudo! - E babando-se toda, diante do trapinho precioso: - O cueirinho! dizia Quase a chorar. Meu rico Menino, o seu cueirinho...
Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicário no gavetão.
Mas o meio-dia ia bater - e as três senhoras apressaram-se para a Sé, para pilhar lugar no altarmor.
Já no largo encontraram D. Josefa Dias, que se precipitava para a igreja, sôfrega da missa, com o mantelete descaído sobre o ombro e uma pluma do chapéu a despregar-se. Tinha estado toda a manhã num frenesi com a criada! Fora necessário fazer ela todos os preparos para o jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha lhe desse virtude, de nervosa que estava...
- Que temos lá o senhor pároco hoje... Vocês sabem que adoeceu a criada... Ah, já me esquecia, o mano quer que tu lá vás jantar também, Amélia. Diz Que é para haverem duas damas e dois cavalheiros...
Amélia riu de alegria.
- E tu vai depois buscá-la, S. Joaneira, à noitinha... Credo, vesti- me tanto à pressa, que até parece que me está a cair o saiote!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.