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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Quando ás nove horas Arthur ent,rml com Nazareno no Club, na rua do Principe, pareceu-lhe que havia apenas, em logar da larga reunião quc esperava, quatorze ou quinze pessoas. A sala era vasta, d'um aspecto regelado, forrada com um papel pardo semeado de florzinhas azues ; do tecto caiado de fresco descia um candiaro de gaz de dous bicos, sem globos, dando uma luz crua de botequim ; cadei- ras de palhinha, como as dos asylos, perfilavam-se contra a parede ; o soalho velho tinha remendos de taboas novas ; ao fundo, deante d'uma janella que dava para o pateo d'uma cervejaria vizinha, disfargada por uma larga cortina verde, era o estrado da Presidencia, com a sua mesa coberta d'oleado, e um guarda-pé de baeta vermelha ; ao lado, a uma mezinha de pé de gallo onde ardia uma vela, um sujeito que tinha feridas na testa escrevinhava, muito myope, com o nariz sobre o papel. Conversava-se em grupos.

Nazareno deu apertos de mão mudos e levou Arthur a uma sala contigua: caiada de novo, alumiada por um bico de gaz que sahia da parede. Havia no chão rolos de papel, potes de tinta, e, junto á janella de portadas cuidadosamente fechadas, um banco de carpinteiro, Ao pé d'uma pilha de taboas arrimadas ao alto contra a parede, um sujeito, todo de preto, fallava a dous individuos que o escutavam de charuto na bocca. Era o illustre Mathias.

Arthur foi-lhe apresentado pelo Nazareno como «o nosso poeta D. Mathias apertou-lhe a mão com uma gravidade secca, murmurou um estimo muitis8imo, e continuou com o gesto lento, medido, das suas mãos calçados de luvas pretas : — . . . Por isso, no caso do Luiz, fa:ia o geguinte : apenas doscobrisse o escandalo, expulsava-a de casa, sem colera, e recomeçava tranquillamente a trabalhar . . .

Arthur examinava-o : era alto, de feições aquilinas, cabello rapado á escovinha ; o seu bigode curto, castanho, tinha pellos asperos e sahidos ; e o seu olhar azul e claro era frio, apagado, muito duro,

Um dos sujeitos disse, cuspilhando pelliculas de tabaco :

— Pois sim. Mas emfim sempre é sua mulher. Se elle a expulsa gem recursos, abre a porta ao publico

Mathias encolheu os hombros, com uma indiferença que significava : — que tem isso

— Ah — fez o outro agitando a cabeça — é que é muito desagradavel saber uma pessoa que sua mulher está usando o seu nome, e, por traz de taboinhas, a fazer pst, pst, aos sujeitos que passam . . . Mathias interrompeu dogmaticamente :

— Desde o momento em que, por sua culpa, o pacto conjugal se desfez, não tenho nada com as suas acções. A minha honra é minha, não é d'ella ! Se a vejo por traz das tabcinhas, o meu devor é avisai a policia para que a numere e a ponha, a ella, sob o contrôte da hygiene e aos cidadãos, ao abrigo do contagio

Mas na outra sala alguem entrara, porque se ouvia : Olá ! Viva ! Como vae isso ! Ditosos olhos ! Emfim o rumor sympathico em torno d'uma pre senga estimada. E quasi immediatamente um individuo nedio entrou na saleta, de chapéu para a nuca, o ar hilare, uma grossa cadeia de relogio sobre um ventrezinho prospero. O Mathias estendeu-lhe vivamente a mão, os oatros vieram dar-lhe palmadinhas no hombro, com o olhar enternecido. E com as bochechas prazenteiras, o individuo nedio excla-

mou :

— Então cá estamos, cá estamos !

Era o snr. Abilio Pimenta, logista de pannos, proprietario. Devendo ser, por profissão, por interesse, por physionomia, um conservador, a sua presença era para os republicanos uma satisfação permanente, muito saboreada ; com o seu ventre, o seu grilhão, a sua face nedia, o vago cheiro d'ar mazem que sahia d'elle, o amigo Abilio introduzia no Club aquelle tom de respeitabilidade, d'estabilidade, d'ordem, que a Propriedade confere ás Idéas que apoia ; a cooperação d'aquelle proprietario era a evidencia gloriosa da praticabilidade da Republica : elle representava a adhesão da burguezia, e a sua pessoa trazia aos republicanos da plebe aquelle or gulho que dava aos deputados do Terceiro Estado, em 89, a presença, nos seus bancos, dos fidalgos das casas de Noailles ou de Montmorency. A sua presenga tirava ao Club a feição de grupo inquietante de pobretões descontentes e as theorias mais exaltadas tomavam a seriedade de legislações prudentes, quando, para as escutar, se via aquelle honrado logista, d'ar benigno e paterno, com dinheiro no banco, inclinar-se, fazendo com a mão gordalhufa uma concha em redor da orelha cabelluda. A sua assiduidade no Club era proverbial e todavia as suas idéas pareciam nebulosas. Exprimia-se vagamente, dizendo com jovialidade :

— É dar p'ra baixo, é dar p'ra baixo !

Para « dar p'ra baixo », aconselhava a fundação d'um jornal e previamente a cornpra por subscripção d'um prelo, typo, etc. Elle mesmo se offerecia para dar o seu obulo — e que apparecesse o dinheiro que o prelo, typo, etc., não estavam longe . , . Ultimamente estivera incommoaado, com ameaças de dôres rheumaticas, e, muito interessados por aquella vida preciosa, o Mathias, o Nazareno, pe• diam detalhes da sua convalescença.

(continua...)

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