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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Amélia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo alto dum grupo: Ai, que me leva o coração! E as duas senhoras, apressando-se, dobravam para a Rua do Correio, quando lhes apareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. Não as tinha visto desde "o desacato do Largo da Sé", e rompeu logo em exclamações. Ai, filhas, que desgosto aquele! O malvado do escrevente! Ele tinha tido tanto que fazer, que só nessa manhã é que pudera ir ao senhor pároco dar-lhe os sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; ele quis ver-lhe o braço e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura... E se elas vissem, que carnadura tão delicada, que pele tão branca... Uma pelinha de arcanjo !

- Mas querem vocês saber, filhas? Encontrei-o numa grande aflição!

As duas senhoras assustaram-se. Por quê, Libaninho?

A criada, a Vicência, que havia dias se queixava, tinha ido nessa madrugada para o hospital com um febrão...

- E ali está o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vocês! Para hoje bem, que vai jantar com o nosso cônego (também lá estive, ai, que santo!), mas amanhã, mas depois? Que ele já tem em casa a irmã da Vicência, a Dionísia... Mas, oh, filhas, a Dionísia! Foi o que eu lhe disse: a Dionísia pode ser uma santa, mas que reputação!... É que não há pior em Leiria... Uma perdida que não põe os pés na igreja... Tenho a certeza que o senhor chantre até havia de reprovar!

As duas senhoras concordaram logo que a Dionísia (mulher que não cumpria os preceitos, que representara em teatros de curiosos) não convinha ao senhor pároco...

- Olha, S. Joaneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu là lho disse, lá lhe fiz a proposta. É ferrar-se outra vez em sua casa. Que é onde está bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa, que lhe sabe os gostos, e onde tudo é virtude! Ele não disse que não, nem que sim. Mas olha que se lhe podia ler na cara que está a morrer por isso... Tu é que lhe devias falar S. Joaneirinha!

Amélia fizera-se tão escarlate como a sua gravata de seda da Índia. E a S. Joaneira disse ambiguamente:

- Falar-lhe, não... Eu nessas coisas sou muito delicada... Bem compreendes...

- Era como teres um santo de portas adentro, filha! disse com calor o Libaninho. Lembra-te disso! E era um gosto para todos... Tenho a certeza que até Nosso Senhor se havia de alegrar... E agora adeus, pequenas, que vou de fugida. Não vos demoreis, que está a missinha a cair.

As duas senhoras continuaram caladas até casa de D. Maria da Assunção. Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquela possibilidade tão inesperada, tão grave, do senhor pároco voltar para a Rua da Misericórdia! Foi só quando pararam que a S. Joaneira disse, ao puxar a campainha: - Ai, o senhor pároco realmente não pode ter a Dionísia de portas adentro.., - Credo, até causa horror!

Foi também a expressão da Sra. D. Maria da Assunção quando lhe contaram, em cima, a doença da Vicência e a instalação da Dionísia: causava horror!

- Que eu não a conheço, disse a excelente senhora. E tenho até vontade de a conhecer. Que me dizem que é dos pés à cabeça uma crosta de pecado!

A S. Joaneira então falou da "proposta do Libaninho". D. Maria da Assunção declarou logo com ardor que era uma inspiração de Nosso Senhor. Que nunca o senhor pároco devia ter saído da Rua da Misericórdia! Até parece que mal ele se fora embora, Deus retirara a sua graça da casa... Não houvera senão desgostos - o Comunicado, a dor de estômago do cônego, a morte da entrevadinha, aquele desgraçado casamento (que estivera por um triz, que horror!), o escândalo do Largo da Sé... A casa tinha parecido enguiçada!... E era até pecado deixar viver o santinho naquele desarranjo, com a suja da Vicência, que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!

- Em parte nenhuma pode estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que necessita, de portas adentro... E para ti é uma honra, é estar em graça. Olha, filha, se eu não fosse só, sempre o digo, quem o hospedava era eu! Que aqui é que ele estava bem... Que salinha para ele, hem?

Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.

(continua...)

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