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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

És tu acaso o pórtico do Elísio,

Que nos franqueias as regiões sublimes

Que a luz da verdade eterna brilha?

Ou és do nada a fauce tenebrosa,

Onde a morte pra sempre nos arroja

Em um sono sem fim adormecidos!

Oh! quem pudera levantar afouto

Um canto ao menos desse véu tremendo

Que encobre a enternidade...

Mas debalde

Interrogo o sepulcro - e o debruçado

Sobre a voragem tétrica e profunda,

Onde as extintas gerações baqueiam,

Inclino o ouvido, a ver se um eco ao menos

Das margens do infinito me responde!

Mas o silêncio que nas campas reina,

É como o nada - fúnebre e profundo...

...............................................................

Se ao menos eu soubesse que co'a vida

Terminariam tantas incertezas,

Embora os olhos meus além da campa,

Em vez de abrir-se para a luz perene,

Fossem na eterna escuridão do nada

Para sempre apagar-se... - mas quem sabe?

Quem sabe se depois desta existência

Renascerei - pra duvidar ainda?!...

Desalento

Nestes mares sem bonança,

Boiando sem esperança,

Meu baixel em vão se cansa

Por ganhar o amigo porto;

Em sinistro negro véu

Minha estrela se escondeu;

Não vejo luzir no céu

Nenhum lume de conforto.

A tormenta desvairou-me,

Mastro e vela escalavrou-me,

E sem alento deixou-me

Sobre o elemento infiel;

Ouço já o bramir tredo

Das vagas contra o penedo

Onde irá - talvez bem cedo -

Soçobrar o meu batel.

No horizonte não lobrigo

Nem praia, nem lenho amigo,

Que me salve do perigo,

Nem fanal que me esclareça;

Só vejo as vagas rolando,

Pelas rochas soluçando,

E mil coriscos sulcando

A medonha treva espessa.

Voga, baixel sem ventura,

Pela túrbida planura,

Através da sombra escura,

Voga sem leme e sem norte;

Sem velas, fendido o mastro,

Nas vagas lançado o lastro,

E sem ver nos céus um astro,

Ai! que só te resta a morte!

Nada mais ambiciono,

Às vagas eu te abandono,

Como cavalo sem dono

Pelos campos a vagar;

Voga nesse pego insano,

Que nos roncos do oceano

Ouço a voz do desengano

Pavorosa a ribombar!

Voga, baixel foragido,

Voga sem rumo - perdido,

Pelas tormentas batido,

Sobre o elemento infiel;

Para ti não há bonança;

À toa, sem leme avança

Neste mar sem esperança,

Voga, voga, meu baixel!

No meu aniversário

Ao meu amigo o Sr. F.J. de Cerqueira

Hélas! hélas! mes années

Sur ma tête tombent fanées,

Et ne refleuriront jamais.

(Lamartine)

Não vês, amigo? - Lá desponta a aurora

Seus róseos véus nos montes desdobrando;

Traz ao mundo beleza, luz e vida,

Traz sorrisos e amor;

Foi esta qu'outro tempo

Meu berço bafejou, e as tenras pálpebras

Me abriu à luz da vida,

E vem hoje no circulo dos tempos

Marcar sorrindo o giro de meus anos.

Já vai bem longe a quadra da inocência,

Dos brincos e dos risos descuidos os;

Lá s'embrenham nas sombras do passado

Os da infância dourados horizontes.

Oh! feliz quadra! - então eu não sentia

Roçar-me pela fronte

A asa do tempo estragadora e rápida;

E este dia de envolta com os outros

Lá s'escoava desapercebido;

Ia-me a vida em sonhos prazenteiros,

Como ligeira brisa

Entre perfumes leda esvoaçando.

Mas hoje que caiu-me a venda amável!

Que as misérias da vida me ocultava,

Eu vejo com tristeza

O tempo sem piedade ir desfolhando

A flor dos anos meus;

Vai-se esgotando a urna do futuro

Sem do seio sair-lhe os dons sonhados

Na quadra em que a esperança nos embala

Com seu falaz sorriso.

Qual sombra vá, que passa

Sem vestígios deixar em seus caminhos,

Eu vou transpondo a arena da existência,

Vendo irem-se escoando uns após outros

Os meus estéreis dias,

Qual náufrago em rochedo solitário,

Vendo a seus pés quebrar-se uma por uma

As ondas com monótono bramido,

Ah! sem jamais no dorso lhe trazerem

O lenho salvador!

Amigo, o fatal sopro da descrença

Me roça às vezes n'alma, e a deixa nua,

E fria como a laj em do sepulcro;

Sim, tudo vai-se; sonhos de esperança,

Férvidas emoções, anelos puros,

Saudades, ilusões, amor e crenças,

Tudo, tudo me foge, tudo voa

(continua...)

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