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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

misericórdia! sabe quem é a velha que vai pelo braço do sr. Augusto?.

BRAZ – É dama de ouros.

POLIDORO – Como dama de ouros?

BRAZ – Irmã de Casimiro, minha preclara madrinha, feliz celibatária, a quem um tio legou há quatro meses a insignificante fortuna de quinhentos contos de réis.

POLIDORO – Olá!... então dª. Clemência, como sobrinha, está em perspectiva de riqueza? bem o merece: é tão bela!

BRAZ – Qual! a velha é um verdadeiro tipo de avareza, complicada com a mania do casamento. Apesar de afilhado, acho-a medonha; mas meio milhão é dinheiro e já me apresentei candidato.

POLIDORO – E casa-se com ela?

BRAZ – Quem me dera! a velha imagina impedimentos por ser minha madrinha, e, tomando-me por agente e procurador de seus cabedais, rejeita-me como noivo. Há dois meses que me ferve o sangue por isso!

POLIDORO – É uma dama de página muito feia e verso muito bonito!

quinhentos contos de réis... ah! eu já possuí cerca de cem, e em três anos perdi-os todos com as damas do baralho, e de fora do baralho; mas então eu não sabia os segredos do lasquenet! ah, meu Braz! com meio milhão e bons parceiros, em um ano pode-se ganhar nem sei quantos milhões! a sua madrinha, não digo que seja horrível... digo... na verdade, aqui para nós, não é bonita; é, porém, sublime.

BRAZ – E... “Ela vai-se: e com ela vai minha alma!”

POLIDORO – Mas o senhor, que é o procurador, o fac-totum da... velha, tem as mãos sobre os quinhentos contos de réis...

BRAZ – Martírio de Tântalo! se eu não fosse afilhado! oh! antes não me tivessem batizado.

POLIDORO – E todavia o senhor não joga; não compreende as emoções do lasquenet!

BRAZ – E que vem isto ao caso?

POLIDORO – É o caso de cem sortes a dobrar! eu amo doidamente a encantadora dª. Clemência... mas...

BRAZ – É coisa sabida: conta-se com o casamento...

POLIDORO – Sr. Braz... a que horas pode ser procurado amanhã para negócio importante?... os amigos devem entender-se.

BRAZ – No meu escritório até às três horas da tarde.

POLIDORO – Quinhentos contos de réis... deveras?

BRAZ – Palavra de honra: quinhentos contos de réis e mais alguns quebrados que não chegam a um.

POLIDORO – Que idade tem a respeitável senhora?

BRAZ – Está quase a completar os sessenta e três.

POLIDORO – Não é absolutamente velha; pareceu-me que roçava pelos cinqüenta; sem a touca e sem os óculos há de ganhar muito...

BRAZ – A mim se me afigura um anjo ainda mesmo de touca e óculos.

POLIDORO – Anjo de salvação é... sr. Braz, amanhã ao meio-dia em ponto irei ao seu encontro.

BRAZ – Chiton.

CENA XII

BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO e PORFÍRIO

CASIMIRO (A Porfírio) – Vês? também aqui não está; seguiu a Acrobata, positivamente é um rapaz de costumes pervertidos...

PORFÍRIO (A Casimiro) – Deixa-o aproveitar o seu tempo.

CASIMIRO (A Porfírio) – Mas por que diabo há de logo aproveitá-lo com a Acrobata?

BRAZ – Vejo que te aborrece o passeio: vens com fisionomia de logrado, a quem furtaram o relógio.

CASIMIRO – É isso pouco mais ou menos, mas onde estão as senhoras?... o tempo está se enfarruscando de repente.

BRAZ – Aí chega a primeira.

CENA XIII

BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO, PORFÍRIO, CLEMÊNCIA e LEOPOLDO

(Escurece rapidamente: começa a retirar-se a gente que concorrera ao Passeio)

CLEMÊNCIA – A titia? que é dela?...

BRAZ – Ainda não voltou; o dr. Augusto lhe está explicando as reformas do

Fialho.

CASIMIRO – E o tempo vai a pior: temos aguaceiro certo.

CLEMÊNCIA – O povo começa a retirar-se: ainda bem que o nosso carro está à porta do jardim.

BRAZ – Eis a madrinha...e como vem alegre...

CENA XIV

BRAZ, POLIDORO, CASIMIRO, PORFÍRIO, CLEMÊNCIA, LEOPOLDO,

VIOLANTE e AUGUSTO

VIOLANTE (Chegando-se a Clemência e cheirando o ramalhete de violetas) – Como é suave o perfume das violetas! gostas dele Clemência?

BRAZ (A Clemência) – Que ingratidão! derrota número primeira.

CLEMÊNCIA (A Braz contrariada) – Como? não ouvi: ah! sim... mas a chuva...

(Rompe a chover; Leopoldo, Augusto e Polidoro abrem os guarda-chuvas e correm a Violante)

LEOPOLDO – Minha senhora!

AUGUSTO – Excelentíssima!

POLIDORO – Minha senhora!... (Braz desata a rir) VIOLANTE – Basta-me um guarda-chuva!

PORFÍRIO – Até mais ver! (Vai-se correndo)

CASIMIRO – Mas Clemência está se inundando! um guarda-chuva para a menina, senhores!

(continua...)

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