Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Venâncio nunca se havia atrevido a tanto: as dores que sentia no nariz produziram aquela explosão de furor; mas ao nome de velha Tomásia foi às nuvens... era o maior insulto que se lhe podia fazer: tornou-se louca, enraivecida; e, levantando a mão, avançou contra o marido.
— Quem é velha?... quem é tartaruga, e feia, grandissíssimo brejeiro?...
— Senhora, disse Venâncio recuando!... olhe que eu perco-lhe o respeito!...
Mas Tomásia saltou sobre ele, agarrou com a mão esquerda na gola da niza, e com a outra começou a malhar-lhe as costas.
— Então quem é velha?... quem é tartaruga, e feia?... há de haver sarau ou não?...
— Prudência, senhora, olhe que eu...
— Não quero saber de prudências, continuou a boa da mulher; há de haver sarau ou não?...
As costas do pobre marido soavam, como um zabumba, fazendo horríveis caretas, ele exclamou:
— Oh, Sr.ª Tomásia, olhe que eu dou-lhe uma dentada!...
Mas a Sr.ª Tomásia, a quem já doíam as mãos de tanto socar as costas do infeliz Venâncio, mudou-lhe os tormentos, e a fortes puxões do resto dos cabelos que havia em sua calva cabeça, continuou gritando:
— Há de haver sarau ou não?
Neste momento bateram palmas na escada. Venâncio respirou com a esperança de escapar das garras de sua mulher, e disse em voz baixa:
— Largue-me, senhora, estão batendo, deixe ver quem é.
Mas Tomásia não estava disposta a abandonar assim a sua vítima, antes continuou no mesmo gênero de martírio, clamando bem alto para ser ouvida:
— Deixe bater... hei de enganá-lo primeiro... ou responda, há de haver sarau ou não?... As palmas soaram de novo; mas desta vez acenderam elas não a esperança no coração, mas a vergonha no rosto de Venâncio.
— Largue-me, senhora, murmurou ele.
— Há de haver sarau ou não?... gritou ela.
As palmas foram pela terceira vez ouvidas.
— Está bom, disse Venâncio, quero ser prudente... haverá... haverá sarau... e o que quiser. — Eis aí o que se chama um bom marido, exclamou Tomásia largando-o, e rindo-se: vou fazer as cartas de convite: oh, Micaela! vê quem bate.
E sem mais olhar para Venâncio, saiu da sala.
A escrava foi abrir a porta da escada, e o mísero marido aproveitou esse momento para concertar-se.
Quando Venâncio sentiu que a visita acabava de subir a escada, lembrou-se do ditado antigo, e com terrível ironia feita a si próprio; mas para esconder um pouco a sua vergonha, pronunciou com voz bem inteligível:
— Às vezes não há remédio, senão a gente sair fora do sério!... E entrou na sala o Sr. Brás-mimoso.
III
Brás-mimoso
Brás chamava-se o homem que havia acabado de entrar; tinha talvez a mesma idade de Venâncio, mas era tal o seu parecer e o seu trajar, o seu viver e o seu praticar, que em toda a parte se fazia conhecer pelo nome de Brás-mimoso. Tudo nele era com efeito mimoso: estatura muito menos que ordinária, pequeninos pés, delicadas mãos... pisar subtil... e até juízo curto. Com o melhor gênio do mundo, vivia, contudo, em guerra declarada com a natureza, e, se não lhe era possível vencê-la, ao menos escondia os triunfos que ela sobre ele obtinha.
Assim, o peso dos anos tinha conseguido começar a dobrar-lhe o corpo, pois Brásmimoso comprou um espartilho, e se pôs teso, direito e gracioso, como uma palmeira. Os cabelos lhe foram pouco a pouco caindo; Brás-mimoso usou logo de cabeleira. Os dentes se lhe cariaram e se perderam; Brás-mimoso apelou para uma dentadura postiça.
Com o crescer da idade conheceu que se ia tornando pesado, Brás-mimoso não perdeu mais em sarau alguma ocasião de dançar a valsa de corrupio, e por último fez-se mestre nos sapateados da polca.
Lembrou-se que poderia ir ficando rabugento e frio; Brás-mimoso não deixou mais a companhia das moças, tornou-se namorado; como nunca, recita versos, canta modinhas e escreve cartas de amor.
Também não lhe falta tempo para nada disso. Oficial reformado no posto de capitão, ele passa vida de anjo: almoça, janta e ceia sempre, e muitas vezes dorme em casa dos amigos, de manhã vai para os botequins ler periódicos; se é tempo de legislatura, às dez horas guarda-se no melhor lugar de uma das galerias e ouve, e decora para repetir nos círculos que freqüenta, os mais fortes discursos da oposição; se as câmaras estão fechadas, passeia, ou lê romances, nas quintasfeiras vai ao museu, de tarde ao passeio público, e à noite às assembléias, ou ao teatro no camarote de algum conhecido. Freqüenta muito a Rua do Ouvidor, sabe de modas e de vestidos, como M.me Godin, de flores como M.me Finot, de cosméticos e pomadas como Mr. Desmarais. Possui uma lista de todas as moças bonitas do Rio de Janeiro com a nota das suas moradas, tem a modéstia de se crer amado por quase todas, conhece meio mundo, vai a toda a parte, come, bebe, e fala, como... só ele.
Nós o vamos encontrar almoçando com a família de Venâncio; estão à mesa cinco pessoas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.