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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Não se pôde levantar da mesa, e expirou sem agonia, sentado, risonho e provavelmente a pensar no almoço do dia seguinte.

Se esta tradição pudesse correr com fundamentos de veracidade, o Padre Homem da Costa, pondo-se de lado a sua paixão gastrônoma, que não foi nociva senão a ele, deveria ser aplaudido pela sua influência benigna, moralizadora e social, e bem merecera a honra de passar seu nome à rua onde morava e onde enfim morreu.

Ah! se hoje em dia florescesse algum padre como aquele Homem da Costa, certamente o preço das garopas e dos perus seria já fabuloso na Praça do Mercado; porque o número das devotas do padre casamenteiro chegaria pelo menos a igualar ao dos candidatos a empregos públicos: mas também seria menor o número daquelas mártires, a quem chamam solteironas.

Mas enfim a Rua de Aleixo Manoel passou a chamar-se do Padre Homem da Costa, nome que conservou por cento e vinte anos, tendo trocado a casaca e a cabeleira do cirurgião pela batina e pelo solidéu do padre, e faz vontade de rir imaginar beata e clerical durante um século e anos esta Rua do Ouvidor filósofa sensualista, e até rua um pouco ou muito endemoninhada pela multiplicação das tentações.

Em meados do século XVIII a Rua do Padre Homem da Costa estendeu-se um pouco mais para o lado do continente, avançando até a rua que se chamou da Vala; deveras, porém, que não devia aplaudir-se desse prolongamento.

Construída a fonte ou chafariz da Carioca no lugar; depois largo e hoje Praça da Carioca, nome que tomou do das vertentes ótimas que recebeu canalizadas, sobravam tanto as águas que, para dar-lhes esgoto, abriu-se grande vala com leito e paredes de pedra desde a Carioca (chafariz) até o mar no sítio chamado Prainha.

(Entre parênteses: carioca quer dizer em língua tupi - casa do homem: - donde proveio semelhante denominação?... quem era o homem da casa?... pretendiam os selvagens tamoios que aquelas águas como as da fabulosa Cabalina tinham a virtude de inspirar estro poético: donde provinha essa falsa crença?... o homem da casa teria sido algum pajé poeta, algum tamoio solitário, homem notável pelo talento poético que os índios julgassem devido às águas que corriam perto da sua - oca -?... deixo aos meus ilustrados amigos os Srs. Drs. Brigadeiro Couto de Magalhães e Batista, os juizes mais competentes que conheço na matéria, o empenho de resolver este problema, e fecho o parênteses).

A vala foi de considerável utilidade, porquanto serviu para dar vazão àquelas águas que caíam sobrepujantes da fonte e dos tanques de pedra, e também às das chuvas então muito freqüentes e algumas torrenciais, que tornavam como rios as ruas, e inundavam as casas da cidade.

Além disso a vala teve durante anos certa importância administrativa, porque foi considerada muro da cidade, ou linha extrema urbana.

Entretanto a vala ficou exposta, destapada, e como de tudo se abusa, abusaram da inocente e benfeitora os colonos moradores das vizinhanças que a fizeram servir, para o despejo de quanto de pior serviço de suas casas era preciso despejar.

Em breve e necessariamente a desvirtuada vala tornou-se imunda, repugnante, fétida e foco de miasmas, e a Rua do Padre Homem da Costa que avançou até ela devia ser nesse seu novo limite de habitação muito desagradável e anti-higiênica.

Mas apesar das ruins condições determinadas pelo abuso que ficou mencionado, casas se foram construindo aos lados da vala e principiou a formar-se a rua que tomou dela o nome e que hoje se chama de Uruguaiana.

Além da vala, o espaço que se estendia entre o monte de Santo Antônio e o mar, e dessa linha para o centro até a depois chamada cidade nova inclusive, tudo era campo do Rosário.

Em 1764 ou 1765 o Vice-Rei Conde da Cunha ordenou à Câmara Municipal da cidade que fizesse cobrir com lajes grossas a vala fétida e pestífera; a obra executou-se prontamente, e para que não fosse de todo prejudicado o esgoto das águas das chuvas, a vala recebeu ralos de pedra no encruzamento das ruas.

E todavia ainda houve abuso de ralos!

Em todo caso foi considerável o melhoramento olfativo e higiênico, sendo o Conde da Cunha muito aplaudido e louvado por isso nas memórias do tempo.

E eis aí como se escreve a história!

O Vice-Rei Conde da Cunha, doente e velho, que raro se mostrava, passeando pelas ruas da cidade, porventura nunca tinha recebido em seu vice-real nariz o gasoso testemunho das exalações da vala aberta, e entrou na obra melhoradora apenas com a sua indispensável assinatura na ordem expedida para que a vala fosse coberta com lajes grossas.

O que inspirou e determinou esse melhoramento foi noturno e ridículo caso, cuja história parece romance, e há de divertir os meus leitores no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 4

(continua...)

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