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#Contos#Literatura Brasileira

Encher tempo

Por Machado de Assis (1876)

— Um capricho satisfaz-se.

— Nem todos. 

— Quase todos. Não pede decerto a lua? 

— A lua... não, respondeu ela procurando sorrir e esquecer; mas alguma coisa que tem relação com ela. 

— Diga o que é. 

— Estava desejando... que o senhor ficasse esta noite ali fora a contemplar a lua e a fazer-lhe versos, disse ela rindo. Nunca fez versos? 

— Um hexâmetro apenas. 

— Não sei o que é; mas não importa. Era capaz disso? 

— Suprima os versos e a coisa é fácil, respondeu Pedro sorrindo. 

— Fácil! exclamou Lulu. 

E depois de alguns instantes de silêncio: 

Não era bem isso que eu desejava, continuou ela; mas alguma coisa análoga, algum sacrifício... tolice de moça... 

Lulu ergueu-se e foi à janela para disfarçar a comoção. Pedro deixou-se ficar na cadeira. Daí a pouco, ouviram-se os passos do padre Sá; o moço pegou num livro, abriu-o ao acaso e entrou a ler. A tristeza de Lulu foi observada pelo tio, que assentou de si para si convidar o sobrinho a uma conferência, resoluto a conhecer o estado das coisas. — Amam-se, não há dúvida, pensava o velho; mas há alguma coisa, decerto, que não posso descobrir. É necessário sabê-lo. 

Pedro demorou-se em casa do padre até depois de nove horas. A moça presidiu ao chá com a graça habitual, e um pouco mais livre das comoções daquela noite. Acabado o chá, Pedro despediu se do velho sacerdote e da sobrinha. A moça acompanhou-o até à porta do gabinete, enquanto o tio preparava o tabuleiro das damas para a partida de costume. — Boa noite, disse Lulu apertando a mão ao filho de D. Emiliana. 

— Boa noite, respondeu ele. 

E mais baixo: 

— Verá hoje mesmo que lhe satisfaço o capricho. 

Lulu ficou estupefata ao ouvir aquelas palavras; mas não pôde pedir maior explicação, não só porque o tio ficava a poucos passos, como porque o moço só lhe dera tempo de ouvi-lo; saíra imediatamente. 

A partida de damas foi aborrecida e não durou muito. Ambos os contendores estavam preocupados de coisas sérias. Às nove e meia, despediram-se para ir dormir. — Vê se o sono te dá melhor aspecto, disse o padre Sá dando a mão a beijar à sobrinha. — Estou hoje mais feia que de costume? 

— Não; mais triste. 

— Não é tristeza, é cansaço, respondeu a moça; dormi pouco a noite passada. Despediram-se. 

Lulu, apenas entrou no quarto, correu à janela; fê-lo com a curiosidade vaga de saber se o filho de D. Emiliana realizara a promessa de satisfazer-lhe o capricho. A praia estava deserta. 

— Naturalmente! disse ela consigo. Para obedecer a uma tolice minha era necessário cometer tolice maior. 

Lulu entrou, destoucou-se, deixou os vestidos, envolveu-se em um roupão e sentou-se ao pé da janela. Ali ficou cerca de meia hora absorvida em seus pensamentos; a figura de Alexandre flutuava-lhe no espírito, confundindo-se às vezes com a de Pedro. Ela comparava a assiduidade de um com a frieza do outro; frieza que ela atribuía ora a um sentimento de ciúme, ora ao amortecimento da antiga afeição. Esta mesma afeição a moça entrou a analisá-la, a estudá-la no passado sem lhe achar intensidade igual à sua. Nunca duvidara do amor de Alexandre; mas agora que o dissecava reconhecia que era um amor grave e refletido demais, sem aquela exuberância própria da mocidade e do coração. 

(continua...)

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