Por Padre Antônio Vieira (1670)
115.O quarto e último meio ou indústria de evitar o não é antecipar os provimentos, e não ter lugares vagos, porque, tanto que o lugar está provido, cessam as pretensões. Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo, e que em todo o universo não haja lugar vazio. A este fim vemos subir a água, descer o ar, mover-se a terra, romper-se os mármores, estalarem os brasões, e correrem todas as criaturas com ímpeto contra suas próprias inclinações. Daqui nascem os freqüentes terremotos, e os extraordinários e horrendos, que não poucas vezes derrubaram e destruíram cidades inteiras. O mesmo que faz a natureza por impedir o vácuo, faz a ambição pelo ocupar. Em havendo lugares vagos, de todas as partes concorrem tumultuariamente a eles os pretendentes, não por impedir – que só se impedem uns a outros – mas por ocupar o vácuo, e tanto com maior e mais violento ímpeto, quanto a natureza acode ao bem comum do universo, e a ambição ao particular de cada um. E quais sejamos terremotos e perturbações da república que aqui se levantam, basta que o digam as batalhas interiores de Roma no concurso dos consulados. No governo monárquico é muito fácil atalhar todos estes inconvenientes, antecipando o vácuo de tudo aquilo que se pode pretender ou pedir, com prevenir vigilantemente que não haja lugares vagos. E assim o deve fazer todo o prudente príncipe.
116. Partindo-se Cristo para o céu, mandou a seus apóstolos e discípulos que se recolhessem a Jerusalém, e que assim esperassem a vinda do Espírito Santo, que não tardaria muitos dias. Fizeram-no assim recolhidos ao cenáculo. E S. Pedro, que já tinha recebido a investidura de Príncipe da Igreja, sem esperar que o Espírito Santo viesse, a primeira e única coisa que logo fez, foi prover, como proveu em S. Matias, o lugar que estava vago pela morte de Judas. Ninguém haverá que se não admire desta notável resolução e ação de S. Pedro em tal lugar e tal tempo. O tempo em que os apóstolos se haviam de repartir pelo mundo não era chegado, nem havia de ser, como não foi, senão daí a alguns anos, depois de compostos e bem assentados os fundamentos de um tão grande edifício, como era o da nova e universal Igreja. Pois por que não dilata S. Pedro este provimento, ao menos por alguns dias, e por que não espera que desça o Espírito Santo sobre ele, para fazer com mais infalível acerto a eleição daquele lugar? Porque tanto importa, e tanto entendeu S. Pedro que importava que os lugares não estejam vagos, nem por um momento. Oportet foi a primeira palavra com que começou a sua proposta o grande Príncipe do Apostolado, e as últimas com que concluiu a sua oração: Accipere locum ministerii hujus et apostolatus, de quo praevaricatus est Judas, ul abiret in locum suum.15 Os que ali se achavam, como nota o evangelista, eram cento e vinte homens – que bastava serem homens para se temer algum inconveniente: – Erat autem curba hominum simul fere centum viginti (At. 1, 15). Os que se converteram e se lhes agregaram, no mesmo dia em que desceu o Espírito Santo, foram três mil: Et appositae sunt in die illa animae circiter tria millia (At. 2, 41). O número que depois acresceu foi muito maior, e em tanta multidão de gente, toda capaz de aspirar e pretender aquele lugar, se estivesse vago; bem se vê quão perigosa ocasião podia ser perturbar a paz e esfriar a união dos que convinha que fossem, como verdadeiramente diz o Evangelho que eram: Cor unum, et anima una.16 Pois, para prevenir este perigo, e os inconvenientes que dele humanamente se podiam temer, proveja-se logo o lugar – diz S. Pedro – e não esteja um momento vago; donde se seguirá que, vendo-o os presentes, e achando-o, os que vierem, provido, a todos se tire a ocasião de o pretender ou pedir. Nem se podia duvidar que o provimento, que parecia antecipado, e a eleição dele seria acertada, porque como S. Pedro, por razão do seu ofício, tinha segura a assistência do Espírito Santo – posto que o mesmo Espírito Santo desceu sobre todos visivelmente ao décimo dia – naquele mesmo dia desceu invisivelmente sobre S. Pedro, como já tinha descido, quando eficazmente lhe inspirou que não dilatasse o provimento.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 26 ago. 2026.