Por Padre Antônio Vieira (1655)
80. Quando o demônio ofereceu o mundo a Cristo, disse-lhe juntamente, como refere S. Lucas, que ele tinha poderes de Deus para dar o que oferecia: Tibi dabo potestatem hanc universam, et gloriam eorum, quia mihi tradita sunt, et cui volo, do illa.22 Estes poderes que o demônio alegava eram tão falsos como as mesmas promessas. Mas, para apertarmos este ponto, suponhamos que os poderes eram verdadeiros, e que eram ainda maiores. Suponhamos que tinha o demônio poderes de Deus, para verdadeiramente dar este mundo a um homem, e demais destes poderes, que tinha também delegação da onipotência para prometer; cumprir e executar tudo o que quisesse. Neste caso, se o demônio nos propusesse o mesmo contrato que hoje propôs a Cristo, se nos oferecesse todos os reinos e grandezas do mundo, e nos mostrasse procurações de Deus para tudo, aceitá-lo-íamos? Eu entendo que neste caso, qualquer homem bem entendido podia pôr três réplicas, ou três instâncias, a este oferecimento: a primeira, na brevidade da vida; a segunda, na inconstância dos reinos; a terceira, na limitação da natureza humana. Ora, discorrei comigo, e falemos com o demônio. – Tu, demônio, me ofereces todos os reinos do mundo. Grande oferecimento é, mas bem sabes tu que Alexandre Magno não durou mais que seis anos no império, e outros imperadores duraram muito menos, e algum houve que durou só três dias. Pois por seis anos, ou por vinte anos, ou por quarenta anos que posso viver; e esses incertos, hei eu de entregar a minha alma? Não é bom partido. — Não seja essa a dúvida – diz o demônio – eu te seguro, com os poderes que tenho, cem mil anos de vida, e esses sem dor; sem velhice, sem enfermidade. Há mais Outra dúvida? – Ainda que eu haja de ter cem mil anos de vida, quem me segurou a mim a duração e permanência desses reinos e dessa monarquia?
81. Não há coisa mais inconstante no mundo que os reinos, nem menos durável que sua glória e felicidade. Sem recorrer aos exemplos passados, digam-no as mudanças que vindos nestes nossos dias, em que tão pouco segura tiveram os reis a obediência dos vassalos e a coroa, e ainda a mesma cabeça sobre que assentam as coroas.23 Pois se os vassalos mesmos se me houvessem de rebelar, ou os estranhos me houvessem de conquistar os reinos, que me importaria a mim ter o nome e o domínio deles? – Não seja essa também a dificuldade – diz o demônio – eu te asseguro a duração e perpetuidade da monarquia e todos os reinos que te mostrei, por espaço de cem mil anos, e te prometo que as possuirás sempre quietos e pacíficos. Há mais ainda alguma coisa em que reparar? – Ainda há uma. Sendo eu rei de todo o mundo, não me posso gozar de todo ele ao mesmo tempo. Quando tiver a corte em Lisboa, não a posso ter em Paris; quando a tiver em Roma, não a posso ter em Constantinopla; se lograras terras da Europa, não posso lograr as da América; se lograr as delícias de Itália, não possa gozar as da Índia. Pois se eu não hei de ter mais capacidade para os gozos da vida, do que tem qualquer outro homem, que me importa ter tanto poder e tanta matéria para eles? Também isso tem remédio – diz o demônio. – Assim como Cristo no Sacramento está em todos as lugares do mundo, sendo um só e o mesmo, assim farei eu pela onipotência delegada, que tu, sendo um só, estejas juntamente em todos os lugares do mundo, para que em todos possas gozar tudo o que quiseres.
82. Eis aqui as condições com que suponho que nos oferece o demônio o seu contrato. Parece-vos que são boas condições estas, e dignas de se aceitarem? Um homem com cem mil anos de vida seguras, sem dor, nem enfermidade; um homem monarca universal de todos os reinos do mundo, com certeza de não se mudarem; um homem multiplicado em todas as partes do mundo, para poder gozar no mesmo tempo as delícias de todo ele. Parece que a imaginação não pode inventar mais, nem querer mais o desejo. Dizei-me agora: se este contrato vo-lo oferecesse o demônio, assinado por Deus, aceitaríeis esta vida, esta majestade, estas delícias de cem mil anos, com condição de, no cabo deles, perder a alma, e ir ao inferno? É certo que nenhum de nós aceitaria tal contrato. Ao menos, eu não. Pois se não aceitaríamos ao demônio um tal contrato, como aceitamos tentações tão diferentes? Dizei-me: quando o demônio vos tenta, promete-vos larga vida? Antes são muitas vezes tais as tentações que sabeis de certo que, caindo nelas, quando menos, haveis de encurtar a vida e perder a saúde. Mais. Quando o demônio vos tenta, promete-vos reinos e monarquias universais do mundo? Não: um governo, uma privança, um título, um morgado, uma herança e outros interesses menores. Mais. Quando o demônio vos tenta, multiplica-vos a capacidade dos sentidos, para que possais gozar com maior largueza e sem limite os gostos e delícias do mundo? Nada disto. Pois se fora loucura e rematada loucura entregar um homem a sua alma por aquele contrato, que será entregarmo-la cada dia e cada hora por tentações de tanto menos porte? Por uma vaidade, por um desejo, por uma representação, por um apetite, que no instante de antes o desejais, e no instante de depois o aborreceis? Tomara que me respondêsseis a esta evidência, para ver que razão me dais.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.