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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Tudo o que temos dito e ouvido, é o que nos ensina nas Escrituras a fé, nos santos o exemplo, e ainda nos gentios o lume e razão natural. Mas quando eu vejo e considero o modo com que comumente vivemos cristãos, e o modo com que morrem, acho que em vez de acabarmos a vida antes da morte, ainda depois da morte continuamos a vida. Parece paradoxo, mas é experiência de cada dia. Que morto há nestas sepulturas, e mais nas mais altas, em quem a morte se não antecipasse à vida? Que morto há que não esperasse e presumisse que havia de viver mais do que viveu? Dum adhuc ordirer, succidit me. Nós urdimos a teia, a vida a tece, a morte a corta; e quem há, ou quem houve, a quem não sobejasse depois da morte muita parte da urdidura? É possível, dizia Ezequias, quando o profeta o avisou para morrer, é possível que hei de acabar a vida no meio dos meus dias: In dimidio dierum meorum vadam ad portas inferni. E quem lhe disse a este enganado rei, que aquele era o meio, e não o fim de seus dias? Disse-lho a sua imaginação e a sua esperança. Cuidava que havia de viver oitenta anos, e a morte veio aos quarenta. Eis aqui como continuava e estendia a vida quarenta anos além da morte. Quantos estão já debaixo da terra, que ainda lhes faltam por viver muitos anos! Ouçamos a um destes. Anima mea, habes multa bona in annos plurimos (Lc. 12,19): Alma minha, tens muitos bens para muitos anos. Comede, bibe, epulare (Lc. ibid, 20): Leva-te boa vida, regala-te, gasta largamente e a teu prazer, já que tiveste tão boa fortuna. – Não tinha acabado de pronunciar estas palavras, quando ouviu uma voz que lhe dizia: Stulte, hac nocte animam tuam repetent a te (Lc. ibid.): Néscio, ignorante, insensato, este dia que passou foi o último de tua vida, e nesta mesma noite hás de morrer. – Morreu naquela mesma noite, e os muitos anos que se prometia de vida: In annos plurimos, que foi feito deles? Ainda se continuaram e foram correndo em vão, depois da sua morte. Verdadeiramente néscio, e pior que néscio, stulte. Os anos de que fazias conta, não eram teus, e os bens que eram teus, serão de outrem. Mas ainda que os anos não foram teus para a vida, serão teus para a conta, porque hás de dar conta a Deus, do modo com que fazias conta de os viver. Quanto melhor conselho fora acabar antes da morte os anos que vivestes, para o remédio, que continuar depois da morte os anos que não viveste, para o castigo!

Agora acabo eu de entender aquele dificultoso conselho do Espírito Santo: Ne moriaris in tempore non tuo (Eclo. 7,18): Não morras no tempo que não é teu. Ne moriaris: Não morras? Logo, na minha mão está a morte. In tempore non tuo: No tempo que não é teu? Logo, há tempo que é meu, e tempo que não é meu. Assim é. Mas qual é o tempo meu, em que é bem que morra, e qual o tempo não meu, em que é bem que não morra? O tempo meu é o tempo antes da morte; o tempo não meu é o tempo depois da morte. E guardar, ou esperar a morte para o tempo depois da morte, que não é tempo meu, é ignorância, é loucura, é estultícia, como a deste néscio: stulte; mas antecipar a morte, e morrer antes de se acabar a vida, que é o tempo meu, esse é o prudente e o sábio, e o bem entendido morrer. E isto é o que nos aconselha quem só tem na sua mão a morte e a vida: Ne moriaris in tempore non tuo.

Quem haverá logo, se tem juízo, que se não persuada a um tão justo, tão necessário e tão útil partido, como acabar a vida antes da morte? Faça a nossa alma com o nosso corpo, e o nosso corpo com a nossa alma, o concerto que fez Elias. Ia Elias fugindo pelo deserto à perseguição da Rainha Jesabel, que o queria matar, e vendo quão dificultosa coisa era escapar à fúria de uma mulher poderosa e irada, diz o texto que pediu a morte à sua alma: Petivi animae suae ut moreretur (3 Rs. 19,4). Alma minha, morramos; já que se há de morrer por força, morramos por vontade. Isto pedia o corpo à alma, e isto deve também pedir a alma ao corpo, porque ambos vão igualmente interessados no mesmo partido. Alma minha, diga o corpo à alma; corpo meu, diga a alma ao corpo: Se havemos de morrer depois por força e com perigo, morramos agora e logo, de grado e com segurança. Eu bem vejo que o vir facilmente neste concerto, é mais para os desertos que para as cortes. Na corte fugia Elias da morte; no deserto chamava por ela. Mas se uma tal resolução no deserto é mais fácil, na corte é mais necessária, por que nas cortes é muito mais arriscado o esperar pela morte para acabar a vida.

(continua...)

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