Por Gregório de Matos (1696)
2 Por Diogo Pissaro grita,
que acuda a casa queimada,
que Vicência vinha assada
por ver a Marana frita:
Pissaro, que perto habita
entrou, e vendo as disputas
de putas tão dissolutas,
disse (porque elas teimam)
aqui-d'El-Rei, que se queimam
de ciúmes duas putas.
3 Marana a nenhum partido
a praça quis entregar,
que é soldado singular,
nas campanhas de Cupido:
Vicência tinha vencido,
pois entrou na fortaleza,
mas Deus sabe, o que Ihe pesa
de não poder conseguir.
haver então de sair
com armas, e mecha acesa.
4 Não pôde dizer-lhe ali
esta honra militar,
que Marana por se armar
quis a mecha para si:
o que há, que notar aqui
é, que uma, e outra velhaca
dando tão grande matraca,
e o sentinela, que brama,
o General sobre a carna
roncava como uma vaca.
5 Se é certo, que o General
em tal conflito roncou
é, que a prima noute andou
visitando o arraial:
como por todo o arrebal
andou qual Jacurutu,
sempre à espera de um Tatu,
que do laço Ihe escapou,
com pé leve se deitou,
dormiu com pesado cu.
6 Vicência a passos contados
perdeu a praça, e a presa,
porque é por sua simpleza
moça de bofes lavados:
mas o Capitão dá brados
de lidar sempre com isto,
e de um, e doutro anticristo
se deseja em liberdade,
como há de ver, se há verdade
nas cartas, e no seu Cristo?
A CARIDADE COM QUE ESTA MESMA VICENCIA AGAZALHAVA TREZ AMANTES.
Com vossos três amantes me confundo,
Mas vendo-vos com todos cuidadosa,
Entendo, que de amante, e amorosa
Podeis vender amor a todo o mundo.
Se de amor vosso peito é tão fecundo,
E tendes essa entranha tão piedosa,
Vendei-me de afeição uma ventosa,
Que é pouco mais que um selamim sem fundo.
Se tal compro, e nas cartas há verdade,
Eu terei quando menos trinta Damas,
Que infunde vosso amor pluralidade.
E dirá, quem me vir com tantas chamas,
Que Vicência me fez a caridade,
Porque o leite mamei das suas mamas.
BAXA QUE DERAM A ESTA VICENCIA, POR DIZER-SE QUE EXHALLAVA MAO
CHEYRO PELO SUVACOS, E SE FOY METTER COM JOANNA GAFEYRA.
Lavai, lavai, Vicência, esses sovacos,
Porque li num pronóstico almanaque,
Que vos tresanda sempre o estoraque,
E por isso perdeste casa, e cacos.
Hoje que estais vizinha dos buracos
Das pernas gafeirais, dareis mor baque,
Que tanta caca hei medo, que vos caque,
E que fujam de vós té os macacos.
Tratai de perfumar-vos, e esfregar-vos,
Que quem quer esfregar-se, anda esfregada,
Senão ide ser Freira, ou enforcar-vos.
Porque está toda a terra conjurada,
Que antes de vos provar, hão de cheirar-vos,
E lançar-vos ao mar, se estais danada.
INTENTA AGORA O POETA DESAGRAVAR A VICENCIA JUSTAMENTE SENTIDA DOS
SEUS VERSOS.
Os vossos olhos, Vicência,
tão belos, como cruéis,
são de cor tão esquisita,
que não sei, que cor Ihes dê.
Se foram verdes, folgara,
que o verde esperança é,
e tivera eu esperanças
de um favor vos merecer.
Os azuis de porçolana
força é, quer pesar me dêem,
que porçolanas não servem,
onde não hei de comer.
Se são negros vossos olhos,
é já luto, que trazeis
pelos homens, que haveis morto
a rigores, e desdéns.
Mas sendo tais olhos pares,
no mundo outro par não têm,
pois nem os Pares de França
podem seus escravos ser.
Se os vossos olhos se viram
um a outro alguma vez,
como se namorariam!
e se quereriam bem!
Que de amores se disseram
um a outro, que desdéns!
meus olhos se chamariam,
meu sol, minha luz, meu bem,
Um pelo outro chorando,
ambos chorariam, que
quando os olhos vêem chorar,
força é, que chorem também.
Mas por isso a natureza
catelosamente fez
entre os olhos o nariz,
com que os olhos se não vêem.
Que se um a outro se viram,
Vicência, tivera eu
no prezar dos vossos olhos
a vingança, que hei mister.
CELEBRA O POETA À HUMA GRACIOSA DONZELLA, E NÃO MENOS FORMOSA DE
MARAPE CHAMADA ANTONIA.
1 Vi-me Antônia, ao vosso espelho,
e com tal raiva fiquei,
que não sei, como julguei
por linda, a quem me faz velho:
mas tomei melhor conselho
de então não enraivecer,
que se do sol ao correr
vai murchando o Girassol,
que muito, que o vosso sol
me fizeste envelhecer.
2 O com que mais me admirais,
é, que com tanto arrebol
para vós não sejais sol,
pois sois flor, e não murchais.
Como os passos naturais
do Sol pela esfera pura
mo legam toda a criatura,
e o sol sempre se remoça,
assim mesmo não faz mossa
em si o sol da formosura.
3 Tantos anos sol sejais,
que com giros soberanos
enchais dos mortais os anos,
e os vossos nunca os enchais:
a todos envelheçais,
como é próprio na oficina
da luz sempre matutina,
sintam do sol as pisadas
as idades mais douradas,
vós sejais sempre menina.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.