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#Sermões#Retórica

Sermão da Sexagésima

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Veio o Espírito Santo sobre os apóstolos, e quando as línguas desciam do céu, cuidava eu que lhes haviam de pôr na boca, mas elas foram-se pôr na cabeça. Pois por que na cabeça, e não na boca, que é o lugar da língua? Porque o que há de dizer o pregador, não lhe há de sair só da boca; há-lhe de sair pela boca, mas da cabeça. O que sai só da boca pára nos ouvidos: o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento. Ainda têm mais mistério estas línguas do Espírito Santo. Diz o texto, que não se puseram todas as línguas sobre todos os apóstolos, senão cada uma sobre cada um: Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis, seditque supra singulos eorum18. E por que cada uma sobre cada um, e não todas sobre todos? Porque não servem todas as línguas a todos, senão a cada um a sua. Uma língua só sobre Pedro, porque a língua de Pedro não serve a André; outra língua só sobre André, porque a língua de André não serve a Filipe; outra língua só sobre Filipe, porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu; e assim dos mais. E se não, vede o estilo de cada um dos apóstolos sobre que desceu o Espírito Santo. Só de cinco temos escrituras, mas a diferença com que escreveram, como sabem os doutos, é admirável. As penas todas eram tiradas das asas daquela Pomba Divina, mas o estilo, tão diverso, tão particular, e tão próprio de cada um, que bem mostra que era seu. Mateus fácil, João misterioso, Pedro grave, Jacó forte, Tadeu sublime, e todos com tal valentia no dizer, que cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio e cada razão um triunfo. Ajuntai a estes cinco, S. Lucas e S. Marcos, que também ali estavam, e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S. João no Apocalipse: Locuta sunt septem tonitrua voces suas19 Eram trovões que falavam e dearticulavam as vozes, mas estas vozes eram suas: Voces suas, suas, e não alheias, como notou Ansberto: Non alienas, sed suas. Enfim, pregar o alheio é pregar o alheio, e com o alheio nunca se fez coisa boa.

Contudo eu não me firmo de todo nesta razão, porque do grande Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías, como notou S. Lucas, e não com outro nome, senão de sermões: Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum, sicut scriptum est in libto sermonun Jsaiae Pmphetae20. Deixo o que tomau S. Ambrósio de S. Basilio, S. Próspero, e Beda, de Santo Agostinho, Teofilato, e Eutímio, de S. João Crisóstomo.

VIII

A voz: antigamente a primeira qualidade do pregador era bom peito. Como se definiu o Batista. O pregador, voz que arrazoa e não voz que brada. Contudo às vezes valem mais os brados que a razão, como no julgamento de Cristo. Definição de Isaias contrária ao exemplo de Jesus, de Moisés, e de outros patriarcas e profetas. Conclusão: a cousa da falta de fruto dos sermões não está nem na pessoa, nem no estilo, nem na matéria, nem na ciência, nem na voz do pregador

Será finalmente a cousa que há tanto buscamos a voz com que hoje falam os pregadores? Antigamente pregavam bradando, hoje pregam conversando. Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito. E verdadeiramente como o mundo se governa tanto pelos sentidos, podem às vezes mais os brados que a razão. Boa era também esta, mas não a podemos provar com o semeador, porque já dissemos que não era oficio de boca. Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico, nos deu no semeador verdadeiro, que é Cristo. Tanto que Cristo acabou a parábola, diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar: Haec dicens clamabat (Lc. 8,8). Bradou o Senhor, e não arrazoou sobre a parábola, porque era tal o ouditório, que fiou mais dos brados que da razão.

Perguntaram ao Batista, quem era? Respondeu ele: Ego vox clainantis in deserto (Jo. 1,23): Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto. Desta maneira se definiu o Batista. A definição do pregador, cuidava eu que era voz que arrazoa, e não voz que brada. Pois porque se definiu o Batista pelo bradar, e não pelo arrazoar, não pela razão, senão pelos brados? Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão, e tais eram aqueles a quem o Batista pregava. Vede-o claramente em Cristo. Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam, lavou as mãos, e disse: Ego nullam cousam invenio in homine isto (Lc. 23,14): Eu nenhuma cousa acho neste homem. Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora que fosse crucificado: At illi magis clamabant: crucifigatur (Mt. 27,23). De maneira que Cristo tinha por si a razão, e tinha contra si os brados. E qual pôde mais? Puderam mais os brados que a razão. A razão não valeu para o livrar, os brados bastaram para o pôr na cruz. E como os brados no mundo podem tanto, bem é que bradem alguma vez os pregadores, bem é que gritem. Por isto Isaias chamau aos pregadores nuvens: Qui sunt isti, qui ut nubes volant?21 A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio: relâmpago para os olhos trovão para os ouvidos, raio para o coração: com o relâmpago alumia, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio fere a um, o relâmpago a muitos, a trovão a todos. Assim há de ser a voz da pregador: um trovão da céu que assombre e faça tremer o mundo.

(continua...)

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