Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Rui de Leão

Por Machado de Assis (1872)

Os leitores me dispensarão de dizer o que houve quando a pessoa deste ilustre doutor penetrou no recinto da Cadeia Velha. Cumprimentado e abraçado por amigos, olhado com desconfiança por adversários, Rui de Leão era o homem da situação, a esfinge que daria a palavra do futuro. Quando algum deputado orava não deixava de aludir delicadamente ao redator da Alvorada, como um dos homens mais eminentes do país e da câmara.

Numerosos apoiados acolhiam estas expressões de justiça. Durante uns trinta dias esteve calado o novo representante da nação, com grave desgosto dos seus amigos, que atribuíam grande poder de palavra a um homem tão insigne no uso da pena. Os adversários, que tinham a mesma opinião, estimaram aquele silêncio e só desejavam que continuasse do mesmo modo.

Um dia, porém, no meio do grande barulho da assembleia, pediu a palavra o nosso Rui de Leão. Fez-se imediatamente profundo silêncio; os deputados correram a fazer grupo a volta do orador; o povo das galerias debruçou-se mais para não perder nada, e o próprio presidente, pondo a mão em forma de concha atrás da orelha, preparou-se para ouvir a estreia parlamentar do redator da Alvorada. Modesto e moderado em suas aspirações, Rui de Leão começou assim o seu discurso:

Senhor presidente. Das pessoas que o país mandou representá-lo neste recinto, eu sou, sem dúvida, o mais humilde e o menos competente (Não apoiados). Vejo, Sr. presidente, que me rodeiam as capacidades do país, não só entre os meus amigos como entre os meus adversários (Muito bem!) porque eu, senhores, quando contemplo os talentos, apreço as opiniões (Sensação). Nada valho, senhores...

Muitas vozes: Não apoiado!

O Sr. X.: Vale muito...

O orador: Nada valho, mas sinto em mim que posso ajudar o edifício da grandeza nacional, não como o arquiteto que traça o plano, mas como o servente que carrega a pedra (Aplausos). Para construir esse edifício, senhores, que tem feito o governo? Onde estão os seus planos? Que materiais possui? Com que operários conta? Não aparece nada disto.

Agarrados às pastas, os nobres ministros só apreciam o poder pelos prazeres que ele dá, prazeres frívolos e indignos de cidadãos de um grande país, em vez de se consagrarem todos, e a todas as horas, e com todas as forças, ao desenvolvimento da herança que receberam, senhores, e que deverão passar aos nossos filhos!!

Aqui houve uma tal explosão de protestos e aplausos, que o orador foi obrigado a calar-se algum tempo, e o presidente, a agitar a campainha, verdadeira inutilidade no parlamento, porque, quando todos gritam, a campainha tem pouca força moral para acalmar a tempestade.

Serenada aquela, depois de trocados alguns ditos mais ou menos enérgicos, continuou o nosso orador, e daí em diante não houve cena igual, porque a eloquência de Rui de Leão arrebatava amigos e adversários, e todos estavam pendentes dos lábios do novo Demóstenes.

Não resisto à tentação de transcrever das memórias secretas (porque os anais não trazem os discursos de Rui), a peroração do famoso discurso. Ei-la:

Tenho vivido muito, senhores, e conheço profundamente os homens e as cousas. A ciência dos Estados não é uma vã palavra; estudei-as nas obras dos homens públicos e no estudo pessoal dos acontecimentos. Aquele grande e imortal

Catão é para mim o tipo da probidade política, o modelo dos partidários, a consolação das causas vencidas, a lição dos povos, o espantalho dos déspotas, o espelho dos cidadãos (bravo!), a glória da humanidade, o emblema do passado que desmoronou, a esperança do futuro que se levanta! (Aplausos.)

Dir-me-eis, talvez, senhores, que eu devia imitar aquele grande homem recorrendo à morte? (Não! Não!) Não o faço, não poderia fazê-lo! Demais, a causa da verdade estará assim perdida? Eu vejo sentados nas cadeiras ministeriais homens que traem os seus deveres e são capazes de vender a consciência por um prato de lentilhas (Sussurros!); mas, senhores, não nos iludamos; por ser Catão, é preciso resistir ao despotismo de César, e onde está César? Alguém conhece entre os seus adversários um César? (Ouçam! Ouçam!) Descansemos, pois; não recorramos a um exemplo que seria funesto, porque a causa da verdade está salva, desde que houver, entre nós e a oposição, a força e a união necessárias para vencer estes carregadores de pastas!

(Aplausos)

Senhores, vou concluir.

Os hebreus atravessaram o deserto guiados por uma coluna de fogo. Somos os hebreus da política; a coluna de fogo é a verdade; ali nas cadeiras ministeriais, está a terra de promissão. Emboquemos as trombetas da franqueza, avancemos com as tropas da vontade, empunhemos a espada da decisão, e aqueles cairão; aqueles homens serão cadáveres políticos porque, senhores, pouco dista de um moribundo a um cadáver.

Esta monumental peroração, que os professores deviam dar aos seus alunos de retórica, causou imensa impressão na Câmara.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →