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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

plano é fazer passar o Danúbio, em vários pontos, a todo o exército, e ferir simultaneamente um golpe irresistível. A demora das operações não tem sido causada somente pelas chuvas embaraçosas e pelas inundações teimosas; tem tido a sua razão no desejo de se preparar com elementos tão completos e uma organização tão vigorosa que a campanha não seja depois senão uma série de fáceis vitórias. Estas vitórias, verdade seja, o público russo começa a impacientar-se por as não ver realizadas; e todo o estado-maior e a corte começam também a sentir a necessidade de as não protrair mais; e sabem porquê? Porque os médicos as julgam indispensáveis à saúde do imperador. Desde a sua volta a Sampetersburgo, o imperador Alexandre sofre de uma grande irritabilidade nervosa e de uma espécie de inquietação alucinada, que enche de susto toda a corte. Tem durante todo o dia uma impaciência febril por telegramas; exige que os mais insignificantes detalhes do que se passa no exército lhe sejam telegrafados de minuto a minuto, exprime desconfianças injustas e mostra-se sem razão descontente com a marcha da guerra. Os médicos julgam que só uma boa vitória russa poderá acalmar esta excitação, e não será de admirar que os Russos apressem os seus movimentos, porque (o que não tem nada de estranho num país em que o imperador é tudo, e o resto nada) os planos do estado-maior devem, de ora em diante, ter em vista as receitas dos médicos.

O que eu ainda não pude tirar a claro é qual é o verdadeiro sentimento do povo russo. Alguns correspondentes dizem que a Rússia considera esta guerra como santa, e arde no mais fanático entusiasmo; outros pintam o povo russo como extremamente descontente, indiferente à guerra, e pensando que, quando tudo está por reformar na Rússia, é insensato querer ir fora reformar a Turquia.

Pelo que tenho ouvido a alguns russos, não me parece que o entusiasmo público seja grande. As doações espontâneas para a guerra não significam nada: as que vêm das municipalidades são quase impostas à força pelo Governo, as que vêm dos particulares são um meio astucioso de obter mercês, condecorações e privilégios.

A guerra foi declarada por três motivos: primeiro, para satisfazer as classes militares (tão preponderantes na Rússia), por uma campanha de conquista; segundo, para evitar a bancarrota e salvar as dificuldades financeiras por estes empréstimos feitos em nome da guerra santa; terceiro, porque o Governo turco concedeu uma constituição.

A constituição turca, na verdade, fez uma grande impressão em toda a Rússia: humilhou-a. O Turco, o bárbaro, o infiel tinha uma constituição – essa alta expressão da civilização política – enquanto o Russo, o santo russo, vivia ainda sob o bel-prazer imperial. Toda a nação sentia isto amargamente; por se ter atrevido a dizê-lo, muito encapotadamente, o Golos foi suspenso por dois meses. Um certo estremecimento de independência e liberalismo percorreu todo o império – e o Governo sentiu bem que para distrair a atenção do interior era necessário fazer a guerra. E, com efeito, foi depois da constituição turca que a política russa se mostrou mais teimosa e, sob as suas aparências, mais ávida de conflito.

Não creio, porém, que propriamente na massa do povo russo houvesse um desejo pela guerra: a sua simpatia pelo irmão eslavo, se existe, é muito limitada, ou pelo menos o proletário russo sabe perfeitamente que o eslavo, sob o domínio turco, é mais feliz que ele sob o domínio do czar, e não se julga portanto obrigado a dar-lhe uma grande comiseração.

A burguesia, mais educada e sem grande ardor religioso, não vê na guerra senão uma oneração suplementar de impostos e de despesas. As conquistas e os aumentos territoriais são-lhe indiferentes: como é um zero no Estado, não lhe importa o engrandecimento do Estado.

Julgo, portanto, que se exagera grandemente o entusiasmo russo pela guerra santa. Não falo, naturalmente, no exército; e, todavia, no exército mesmo tem havido aparências de insubordinação: um regimento circassiano foi de repente mandado recolher à Rússia, por mostrar tendências rebeldes. Os regimentos circassianos estavam, diz-se, sob a persuasão de que se iam bater contra os húngaros, não contra os maometanos; quando, porém, viram realmente qual era o inimigo estavam mais dispostos a unir-se a ele que a combatê-lo. Outros actos desagradáveis têm sido praticados no exército russo: assim o comissário-geral dos Fornecimentos acaba de ser fuzilado sem processo. Este funcionário estimável introduziu na farinha tal quantidade de cal – que realmente não era possível deixar de lhe meter algumas balas no peito. Uma certa quantidade de cal na farinha, como uma certa quantidade de paucampeche no vinho – são procedimentos razoáveis, que dão honra, grandes proveitos e ordinariamente uma condecoração. Mas uma tal porção de cal que torna a farinha mais própria para pintar paredes que para fazer pão é realmente abusivo, e o Conselho de Guerra foi apenas justo dando àquele funcionário uma disponibilidade... na eternidade.

Continua-se aqui comentando com grande azedume o golpe de estado de Mac Mahon. Aquele acto importuno, violento, grosseiro na sua forma, tem provocado a reprovação da Europa inteira. É necessário realmente que os juizes sejam bem estreitos, a paixão partidária bem feroz, o bom senso bem pervertido – para que, em plena paz, em plena prosperidade, no meio do mais sábio trabalho de reorganização, se lance gratuitamente uma nação, ainda convalescente, nas agitações da incerteza e nos perigos da revolução.

(continua...)

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