Por Eça de Queirós (1925)
Cessava toda a duvida ; e assim, com a auctorisação, quasi por conselho do seu proprio auctor, ficou decidida a publicação, senão das contas do alfaiate, pelo menos dos romances, das novenas, dos artigos, das notas, que elle em vida atirava para o canto» e que veem augmentar o nosso conhecimento do artista revelando-nos novos pensamentos, novas emoções, ou fórmas differentes no exprimir as emoções e os pensamentos que lhe eram habituaes.
Além d'estes manuscriptos de que tentei esboçar a historia, resolvemos publicar n'esta ultima serie d'ineditos, tudo quanto entre os papeis de meu Pae nos pareceu ter, pela fór,• ma, pelo assumpto ou pela originalidade, um interesse ver„ dadeiro.
Assim se Juntaram n'um volume de Paginas Esquecida% trechos ineditos de Prosas Barbaras, Cartas d' Inglaterra, Correspondenc¿as de Fradique, artigos e, finalmente, o começo d'um conto, ou novena, ou romance—- é impossivel esclarecel-o mas que, pelo formato do papel e pela letra larga, clara, serena, pertence seguramente á ultima phase litteraria de meu Pae, á phase admiravel dos Santos, em que o espirito critico tanto se attenua e a fórma attinge o seu maximo esplendor. Este volume, na sua diversidade, apparece-nos assim como um curto resumo de toda uma carreira litteraria, desde os escriptos barbaros da extrema mocidade, até ás paginas de serenidade magnifica dos ultimos annos.
N'outro volume reuniram-se as Notas de Viagem, encontradas, rabiscadas a lapis, em tres pequenos cadernos d'algibeira : visões luminosas do Oriente, Impressões apontadas á pressa, notas tomadas sobre o joelho entre as ruinas millenarias d'um templo, deante da doçura d'uma paisagem evangelica, ou em meio da confusúo multicolor d'um bazar do Cairo.
E finalmente, depois da intensidade dramatica dos romances, da phantasia humoristica das novellas, da diversidade das Paginas Esquecidas, da espontaneidade das Notas de Viagem, fechando a serie d'estas publicações, o volume da sua Correspondencia, documento flagrante da sua personalidade, vem-nos mostrar Eça de Queiroz entre os seus amigos, conversando como elle sabia conversar ou espalhando pelos quatro cantos do mundo, nas folhas leves das suas cartas, alguma coisa da sua individualidade excepcional, da sua originalidade e da sua arte.
A estação d'Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenci.osa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro, de olhos grandes e melancolicos, a face toda branca da frialdade fina d'Outubro, com uma das mãos mettida no bolso d'um velho paletot côr de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia cahindo com uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de carmim muito diluido em agua, e longe, sobre o mar, para além da linha escura dos pinheiraes, por traz de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguinea e orladas d'ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos — que o rapaz magro comparava ág flechas ricamente dispostas d'um tropheu luminoso, Na estação, havia apenas um passageiro esperando o comboio : era um mocetão do campo que se conservava immovel, encostado á parede, com as mãos nos bolsos, os olhos duramente cravados no chão ; ao lado, sentadas sobre uma arca nova de pinho, estavam duas mulheres, uma velha e uma rapariga grossa e sardenta, ambas muito desconsoladas, tendo aos pés, entre ellas, um sacco de chita e um pequeno farnel d'onde sahia o gargalo negro d 'uma garrafa,
O chefe da estação, gordo, com o queixo amar rado n'um lenço de sêda preta, o bonet de galão sujo posto muito ao lado, appareceu á porta da sala das bagagens, de charuto nos dentes. O rapaz magro dirigiu-se timidamente para elle :
— Creio que o comboio vem atrazado . . ,
O chefe aftirmou silenciosamente com a cabeça, e depois d'uma fumaça :
— Vem sempre atrazado aos sabbados , a demora em Espinho.
O rapaz esteve um momento raspando o chão com a bengalinha— e foi andando devagar ao longo da plataforma. Reparava agora no moço do campo: de certo ia a Lisboa, embarcar para o Brasil ; e sensibilisado pela face tão desolada da velha, pensava que o Dmigrante daria um motivo tocante de poesia social, quadras de côr rica — os vastos azues do mar contemplados d'uma amurada de paquete, as noites saudosas, longe, n'uma fazenda do Brasil, quando a lua é muito clara e os engenhos estão calados . . . E aqui, no casebre da aldeia, os paes chorando á lareira e esperando o correio Entrevia mesmo os primeiros versos :
Eil-o que deixa o lar, a mãe chorosa,
Os verdes campos, o casal risonho . . .
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.