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#Contos#Literatura Portuguesa

Coisas Que Só Eu Sei

Por Camilo Castelo Branco (1889)

Carlos relera, com sôfrega ansiedade, a singela expansão de uma alma que, talvez, nunca se abrira, se a não rasgasse o espinho de um martírio surdo. Henriqueta não escrevia assim uma carta a um homem, que pudesse consolá-la. Afeita a gemer no silêncio, e na solidão, tornava-se como egoísta das suas dores, e supunha que divulgá-las era esfolhar a mais bela flor da sua coroa de mártir. Escreveu, porque a sua carta era um mito de segredo e publicidade ; porque a sua aflição não rastejava pelos queixumes lamuriantes e triviais de um grande número de mulheres, que não choram nunca a viuvez do coração, e lastimam sempre a demora das segundas núpcias ; escreveu enfim, porque a sua dor, sem desonrar-se com uma publicidade estéril, interessava um coração, esposava uma simpatia, um sofrimento simultâneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre admiração ! Há mulheres vaidosas - deixem-me assim dizer - da fidalguia do seu sofrer. Risonhas para o mundo, é muito sublime aquela angústia represada que só pode extravasar os sobejos do seu fel em uma carta anônima. Lagrimosas para si, e fechadas no círculo estreito que a sociedade lhes traça como o compasso inexorável das conveniências, essas sim, são duas vezes anjos despenhados !

Quem pudesse receber na taça de suas lágrimas algumas que aí se choram, e que a opulência material não enxuga, experimentaria consolações de um sabor novo. O padecimento que se esconde impõe o respeito religioso do augusto mistério desta religião universal, simbolizada pelo sofrimento comum. O homem que pudesse verter uma gota de orvalho na aridez de algum coração, seria o sacerdote providencial no tabernáculo de um espírito superior, que velasse a vida da terra para que tamanhas agonias não fossem estéreis na vida do céu. Não há na terra mais gloriosa missão.

Carlos, portanto, sentiu-se feliz deste orgulho santo que enobrece a consciência do homem que recebe o privilégio de uma confidência. Esta mulher, dizia ele, é para mim um ente quase fantástico. Alívios quais são os que eu posso dar-lhe ?… Nem ao menos escrever-lhe !… E ela… Em que fará consistir o seu prazer ?! Deus o sabe ! Quem pode explicar, e mesmo explicar-se a singularidade de um proceder, às vezes, inconcebível ?

No correio próximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta :

“Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta ? Adivinhaste o resto, com presteza natural. Recordaste mil aventuras deste género, e amoldaste a minha história às legítimas consequências de todas as aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem com quem fugira, e chamaste a isto, talvez, uma dedução contida nos princípios.

Pensaste bem, amigo, a lógica da desgraça é essa, e o contrário dos teus juízos é o que se chama sofisma, porque eu estou em pensar que a virtude é o absurdo da lógica dos fatos, é a heresia da religião das sociedades, é a aberração monstruosa das leis, que regem o destino do mundo. Achas-me metafísica de mais ?

Não te impacientes. A dor refugia-se nas abstrações, e encontra melhor pábulo na Loucura de Erasmo, que nas sisudas deduções de Montesquieu.

Minha mãe estava reservada para uma grande provação ! Amparou-a Deus naquele golpe, e permitiu-lhe uma energia que não era de esperar. Vasco de Seabra bateu às portas de todas as igrejas de Lisboa, para me apresentar, como sua mulher, ao cura da freguesia, e achou-as fechadas. Éramos perseguidos, e Vasco não contava com a sua superioridade sobre meu irmão, que lhe fizera certa e infalível a morte, onde quer que a fortuna lho deparasse.

Fugimos de Lisboa para Espanha. Um dia entrou Vasco, alvoroçado, pálido e febril daquela febre de medo, que, realmente, era, até então, a única face prosaica do meu amante. Emalamos a toda a pressa, e partimos para Londres. É que Vasco de Seabra vira meu irmão em Madrid.

Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranqüilizou-se, porque lhe afiançaram de Lisboa a volta de meu irmão, que perdera as esperanças de encontrar-me.

Se me perguntas como era a vida íntima destes dois fugitivos, aos quais não faltava condição alguma das aventuras românticas de um rapto, dir-ta-ei em poucas linhas.

O primeiro mês das nossas núpcias de emboscada foi um sonho, uma febre, uma anarquia de sensações que, levadas ao extremo do gozo, pareciam tocar as raias do sofrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as sedutoras fraquezas de um homem ; queimava-me com o seu fogo, divinizava-me com o seu espírito ; levavame de mundo em mundo à região dos anjos onde a vida deve ser o êxtase, o arroubamento, a alienação com que a minha alma se derramava nas sensações ardentíssimas daquele homem.

No segundo mês, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez “que era muito meu amigo”. O coração pulsava-lhe vagaroso, os olhos não faiscavam eletricidade, os sorrisos eram frios... Os meus beijos já os não aqueciam naqueles lábios ! ‘Sinto por ti uma sincera estima.’ Quanto isto se diz, depois de um amor vertiginoso, que não sabe as frases triviais, a paixão está morta. E estava…

Depois, Carlos, falávamos em literatura, analisávamos as óperas, discutíamos os méritos dos romances, e vivíamos em academia permanente, quando Vasco me não deixava quatro, cinco e seis horas entregue às minhas inocentes recreações científicas.

(continua...)

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