Por Camilo Castelo Branco (1864)
Não sei de que futuro Abril do meu porvir me veio esta manhã um bafejo aromático de flores, umas ondulações de luz, que me pareciam as da minha juventude. Tudo me visitou como em mãos do fugaz arcanjo dó contentamento. Passou o núncio misterioso, passou depressa, mas o meu espírito ergueu-se alvoroçado a saudar o sol de Deus, do Deus imenso que na imensidade dos seus mundos ainda guardará para mim um quinhão de alegrias parcas e modestas, as que unicamente podem dar consciência repousada, prelibações de bem-aventurança e honrada aliança com os homens.
Penso que estou escrevendo as tuas palavras, à meu amigo, redimido a lágrimas, a ultrajes e a desapego do mundo. O clarão que hoje alumiou a minha alvorada seria porventura um reflexo das tuas alegrias. Há dias que me disseste: "Sabes tu o que é ter um Deus, que nos escuta, que nos reprova, que nos louva, que nos povoa o espaço onde a alma insaciável do homem encontra um vazio horrendo, uma respiração aflitiva?"
Querias tu dizer-me que orasse? A ti o confesso em grandes enchentes de consolação, e ao mundo o confessarei sem o ímpio rubor dos miseráveis que perderiam sua alma antes que a irregularidade os escarnecesse: orei, meu amigo; porque, num dos mais apertados transes da tua vida, quando mo acabavas de contar, interrompi o teu silêncio, perguntando:
- E que fizeste depois?
E tu respondeste-me:
- Depois, orei.
V
Afonso de Teive estudava, há hoje vinte anos, em Braga, os elementos preparatórios para o curso universitário, quando viu Teodora, conhecida pela morgadinha da Fervença. Era ela então menina de catorze anos. Afonso tinha dezassete.
As mães destes dois meninos entrevistos e amados com o inocente atractivo do beijo aéreo na flor a desatar-se e a enrubescer na tige, tinham sido condiscípulas na educação de um convento. Apartaram-se para serem esposas, com promessa de se continuarem a amar em seus filhos, se a sorte lhos desse com vocação para se unirem.
Votos de virgens ainda, feitos com as faces purpureadas do calor do coração, - que as lavava contentes aos seus novos destinos.
A mãe de Teodora igualou em fidelidade da palavra prometida a mãe de Afonso.
Uma tristeza, porém, a desconsolava, e cada dia se espessava mais a escuridade em seu espírito: sentia-se morrer, aos trinta e três anos, de enfermidade de peito, e deixava Teodora em anos verdes, solteira ainda, à mercê e alvedrio de tutores.
Na última fase da sua vida, foi ela a Braga com sua filha, de propósito a encontrarem-se com o moço predestinado a esposo, já esquecido, talvez, dos primeiros anos em que se haviam conhecido crianças. O ver com que alegria eles se reconheceram e saudaram, como avezinhas pousadas em uma mesma fronde ao mesmo arrebol da manhã, melhorou temporariamente a enferma; porém, a muito rogada vontade do Senhor não lhe concedeu os dois anos de vida pedidos para a efectuação do casamento.
Segredos do Céu previdentíssimo; que, a não o serem, estes rogos de mãe, em favor davirgem, que vai ficar sozinha no mundo, com os seus dois inimigos - inocência e formosura -, tais rogos baldados, e indeferidos em Deus induziriam a argumentar contra a mediação do Criador nas misérias que criou.
Apenas falecida sua mãe, Teodora foi recolhida ao Convento das Ursulinas, por deliberação de um tio paterno, constituído espontaneamente tutor da órfã.
Afonso, aconselhado pelo coração e por sua mãe, visitava a educanda, disfarçando as frequentes visitas com a inocente mentira de parentesco.
Teodora, com dois meses de convento, desenvolveu-se e granjeou ciência da vida que não alcançaria em dois anos de aldeia, da sua solitária aldeia, onde tinha apenas aves, flores e estrelas a segredarem-lhe iniciações pára amor. No convento, as prelecções eram menos vagas e mais acomodadas à capacidade das educandas. E certo que as mestras não leccionavam ternuras; mas o zelo com que elas vedavam o pomo dava a desconfiar que as precautas religiosas lhe tinham saboreado o travor, a não ser que o desdenhavam à mingua de dentes incisivos com que entrassem na casca daquele execrável e tão convidativo fruto de Pentápolis.
Com menos de quinze anos, Teodora completou o exterior de suas graças e o interior do seu espírito. A beleza sabia ela já quantas invejas lhe ganhava entre as condiscípulas, quantas intrigas, quantas repreensões da mestra, à conta do muito enfeitar-se e remirar-se ao espelho. Não importava. A morgadinha da Fervença gostava de ser bela, de ser invejada e perseguida das inimigas, com condição e ressalva de ser admirada pelos galanteadores das suas perseguidoras. Enquanto ao espírito, o saber precoce de grades adentro igualou-a, se não antes avantajou-a muito ao estudantinho de Ruivães, que, contra toda a natureza e arte, em colóquio amoroso ficava muito aquém de Teodora, e saia do locutório admirado da esperteza palavrosa da morgadinha.
Estas delicias do palratório, porém, foram repentinamente suspensas.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.