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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

-Universal. Creia que há amigos neste mundo; como aquele, poucos. Aquilo era ouro. E que cabeça! que inteligência! que instrução! Viveu doente os últimos tempos, donde lhe veio alguma impertinência, alguns caprichos. Sabe, não? rico e doente, sem família, tinha naturalmente exigências. . . Mas ouro puro, ouro de lei. Aquilo quando estimava, estimava de uma vez. Éramos amigos, e não me disse nada. Vai um dia. quando morreu, abriu-se o testamento, e achei-me com tudo. É verdade. Herdeiro universal! Olhe que não há uma deixa no testamento para outra pessoa. Também não tinha parente. O único parente que teria, seria eu, se ele chegasse a casar com uma irmã minha, que morreu, coitada! Fiquei só amigo, mas, ele soube ser amigo, não acha?

-Seguramente, afirmou o Palha.

Já os olhos deste não brilhavam, refletiam profundamente. Rubião metera-se por um mato cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos da fortuna; regalava-se em falar da herança; confessou que não sabia ainda a soma total, mas podia calcular por longe...

-O melhor é não calcular nada, atalhou Cristiano. Nunca será menos de cem contos?

-Upa?

-Pois daí para cima, é esperar calado. E outra cousa...

-Creio que não menos de trezentos...

-Outra cousa. Não repita o seu caso a pessoas estranhas. Agradeço-lhe a confiança que lhe mereci, mas não se exponha ao primeiro encontro. Discrição e caras serviçais nem sempre andam juntas.

CAPÍTULO XXII

CHEGADOS à estação da Corte, despediram-se quase familiarmente Palha ofereceu a sua casa em Santa Teresa; o ex-professor ia para a Hospedaria União, e prometeram visitar-se.

CAPÍTULO XXIII

No DIA SEGUINTE, estava Rubião ansioso por ter ao pé de si o recente amigo da estrada de ferro, e determinou ir a SantaTeresa, à tarde; mas foi o próprio Palha que o procurou logo de manhã. Ia cumprimentá-lo, ver se estava bem ali, ou se preferia a casa dele, que ficava no alto. Rubião não aceitou a casa, mas aceitou o advogado, um contraparente do Palha, que este he indicou, como um dos primeiros, apesar de muito moço.

-É aproveitá-lo, enquanto ele não exige que lhe paguem a fama.

Rubião fê-lo almoçar, e acompanhou-o ao escritório do advogado, apesar dos protestos do cão, que queria ir também. Tudo se ajustou.

-Vá jantar logo comigo, em Santa Teresa, disse o Palha ao despedir-se. Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.

CAPÍTULO XXIV

RUBIÃO tinha vexame, por causa de Sofia; não sabia haver-se com senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera de ser forte e implacável. Foi jantar. Abençoada resolução! Onde acharia iguais horas? Sofia era, em casa, muito melhor que no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos descobertos; cá trazia à vista os olhos e o corpo, elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos que eram bonitas, e um princípio de braço. Demais, aqui era a dona da casa, falava mais, desfazia-se em obséquios; Rubião desceu meio tonto.

CAPÍTULO XXV

JANTOU lá muitas vezes. Era tímido e acanhado. A freqüência atenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que ele não podia extinguir. Enquanto durou o inventário, e principalmente a denúncia dada por alguém contra o testamento, alegando que o Quincas Borba, por manifesta demência, não podia testar, o nosso Rubião distraiu-se; mas a denúncia foi destruída, e o inventário caminhou rapidamente para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar em que tomaram parte, além dos três, o advogado, o procurador e o escrivão. Sofia tinha nesse dia os mais belos olhos do mundo.

CAPÍTULO XXVI

"PARECE que ela os compra em alguma fábrica misteriosa, pensou Rubião, descendo o morro, nunca os vi como hoje."

Seguiu-se a mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas foi preciso alfaiá-la, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a notícia, acompanhando-o às lojas e leilões. Às vezes, como já sabemos, iam os três; porque há cousas, dizia graciosamente Sofia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião aceitava

agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando sem propósito, inventando necessidades, tudo para ter mais tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, falando, explicando, demonstrando.

CAPÍTULO XXVII

TUDO ISSO passava agora pela cabeça do Rubião, depois do café, no mesmo lugar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se de ir ver o Quincas Borba, e soltá-lo. Era a sua obrigação de todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.

CAPÍTULO XXVIII

"MAS QUE PECADO é este que me persegue? pensava ele andando. Ela é casada, dá se bem com o marido, o marido meu amigo, tem-me confiança, como ninguém... Que tentações são estas?"

Parava, e as tentações paravam também. Ele, um Santo Antão leigo, diferençava-se do anacoreta em amar as sugestões do Diabo, uma vez que teimassem muito. Daí a alternação dos monólogos

(continua...)

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