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#Anedotas#Literatura Brasileira

Qual dos dois

Por Machado de Assis (1872)

Numa ocasião, pediu um dos amigos da casa que a moca cantasse a cavatina da Norma, justamente na ocasião em que Daniel, por entabular intimidade, lhe pedia um pedaço de Lúcia.

Colocada entre os dois pedidos, Augusta observou:

— Não posso executar ambas as coisas ao mesmo tempo. Uma há de ser primeira. Qual delas? Resolvam entre si.

Enquanto o sujeito, que pedira a Norma, inclinava-se diante de Daniel, cedendo-lhe a vez, Augusta com ar distraído e indiferente brincava com as tranças de uma amiga que se lhe aproximara e que ia acompanhá-la ao piano.

Arranjara as coisas de modo que, nem mostrava preferência, nem desdém por Daniel, o que aconteceria (pensava ela) se cantasse primeiro ou depois o trecho reclamado pelo rapaz.

Estes e outros incidentes produziram em Daniel o efeito natural; o orgulho foi-se pouco a pouco transformando; quando dali saiu, naquela noite, já se pode dizer que no coração do rapaz rompia a aurora do amor.

E, coisa singular, esse amor não era, como em outros casos, um resultado de simpatia, mas sim antipatia de duas criaturas, que, se se odiassem alguma vez, seriam mortais inimigos.

XI

Mão é minha intenção apresentar Augusta como um caráter excepcional, nem como um espírito superior. Os sentimentos da moça eram, em resumo, os mesmos das outras mulheres. O que a dominava, porém, era uma certa frieza de temperamento que a tornava incompetente para os grandes afetos. Acrescente-se a isto uma tal ou qual vaidade de sua beleza, e aí temos o que era a filha de Madalena.

Educada pela mãe com uma perfeita independência dc espírito, Augusta adquiriu certa aspereza que lhe fazia o caráter antipático. Era imperiosa, altiva, às vezes bondosa, mas bondosa por orgulho, não acreditando muito nem pouco na violência dos sentimentos; o amor para ela era simplesmente uma coisa que ela não compreendia, nem desejava compreender. Parecia-lhe melhor o triunfo numa sala que num coração.

Nem Luís nem Daniel compreendiam isto; a indiferença da moça era apreciada por eles diversamente do que cumpria ser, e daí vinha a esperança de um e o capricho de outro. O verdadeiro triunfo seria abandonar o campo; talvez que o despeito produzisse nela o resultado favorável. Quem sabe? seria talvez a primeira a dar um passo para o esquivo namorado.

Luís supunha que podia fascinar a moça pela grandeza de posição; algumas circunstâncias lhe davam razão para crer assim; mas eram simples circunstâncias. Quanto a Daniel, um pouco picado em seu amor-próprio, assentou que de uma luta pertinaz poderia resultar ser um bom general em vez de diplomata fino. Afigurava-lhe que a espada de Condé tinha para o caso mais virtude que a pena de Metternich. Com estas impressões saiu da casa de Augusta.

Era a primeira vez que no espírito do moço a vontade anunciava um papel ativo. Não era decerto o amor, senão o amor-próprio que o inspirava assim. Mas neste caso, amor próprio já não era um sintoma do próprio amor? Daniel não percebeu isto; atirou-se à luta. Começou a freqüentar a casa de Augusta na qualidade de amigo e vizinho. A moça foi com ele e com todos os outros atenciosa e polida, mas fria; distribuía a sua atenção com igualdade. Não dava direito a queixas nem esperanças; valia tanto para ela Daniel como Luís.

Luís freqüentava pouco a casa; nem se podia dizer que a freqüentava; ia lá de longe em longe; conversava meia hora e saía logo.

Posto que Daniel não entrasse nunca nas campanhas do namoro, e apenas contasse em toda a vida alguns fáceis triunfos do tempo da academia, todavia houve-se desde princípio como um verdadeiro cabo de guerra.

Foi difícil à moça resistir aos primeiros ímpetos da força arregimentada do rapaz. Aos tiros de artilheria, isto é, os olhares, resistiu ela com facilidade; ninguém tinha maior expressão de desdém do que ela, quando se tratava de repelir os olhares de um cortesão. Mas quando, depois de seus primeiros tiros, Daniel aproveitou uma situação adequada e atirou contra a fortaleza as massas compactas da infanteria, isto é, quando ele fez uma declaração em regra, Augusta não foi tão fácil na defesa, e, se repeliu o inimigo, foi com sensíveis perdas de sua parte.

Daniel acabava de declarar que a amava.

— Não creia, disse ele, que se trata de um amor de poeta. Eu não tenho nada de poeta; nem é coisa que me penalize. O meu amor vem um pouco da razão. Sou um homem temperado. Confesso que as suas graças me impressionaram bastante; mas creia que, se não achasse digna de ser minha mulher, não lhe falava nisso. Estou que o amor duraria,

pouco mais que as rosas de Malherbe. Quer ser minha mulher?

Esta declaração, em que misturava a sinceridade com a insolência, foi dita com volubilidade, sem fogo nem lágrimas na voz, no meio de tudo com certa graça. Augusta, tão fácil em responder, se encontrasse um homem louco de amores, não achou logo uma palavra para opor à pergunta e pedido de Daniel.

(continua...)

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