Por Machado de Assis (1867)
E não foi. Uma paixão neutralizou outra. Venâncio era dessas naturezas escravas da sensualidade, que estimam as estátuas, não pelo cunho de beleza ideal que elas possam ter, mas pela vista e exuberância das formas exteriores.
XV
Tal foi a história que Carlota me contou.
Quando ela acabou tinha eu o rosto escondido nas mãos; palpitava-me o coração com uma força desusada. Minha consciência restituía à infeliz moça os créditos de elevação moral em que a tinha anteriormente aos tristes acontecimentos de que ela foi vítima. Em vez de um monstro tinha eu diante de mim uma mártir.
— Se esta simples exposição dos fatos, disse-me ela, pode torná-lo à vida, viva; eu lhe peço. Viva por sua mãe e para sua mãe. Se eu ainda o amasse, ou pudesse amá-lo, dir lhe-ia que vivesse por mim.
— Tem razão, respondi eu.
E tomando a mão de Carlota, beijei-lhe respeitosamente. Não era um beijo de amor, era um beijo de gratidão. Depois do que ela me disse eu sentia que voltava à vida.
— Agora, disse ela, adeus.
E saiu.
Minha mãe não a deixou sair sem cobri-la de beijos verdadeiramente maternais.
XVI
26 de Dezembro
São dez horas da manhã.
Passei uma noite tranqüila. Tive sonhos felizes. Sonhei que estava bom e vivia com minha mãe em uma casa retirada do bulício e da agitação. Voltavam os meus dias de poeta, e eu cantava em estrofes inspiradas a ventura que me dava a paz do coração e da consciência.
Não sei por quê, esta perspectiva de felicidade já me não desgosta, e nem já me causa ressentimento a alegria expansiva e radiante da natureza.
Ao mesmo tempo, a idéia tão poética dessa vida sossegada e feliz é contrariada pela idéia de que perdi Carlota em virtude de um contrato fundado sobre o vício. Esta idéia traz-me à vida real, e eu olho já os sonhos do passado e o desta noite como ilusões sem realidade prática.
A prática é outra coisa. Não transigir com os desvios dos homens, mas viver preparado para eles, tal é a norma regular que se me afigura devem ter todas as consciências honestas e previdentes.
Deixar-me seduzir por novas ilusões e expor-me a novos desenganos e torturas? É o que farei... se ficar bom.
Ficarei?
O doutor me dirá.
O doutor! É seguramente a ele que eu devo esta transformação na minha vida. Foi, sem dúvida, ele quem encaminhou aquela explicação que tão benéfica foi para mim. Farei tudo o que puder para ficar bom.
Oh! minha mãe! minha mãe!
* * *
XVII
EPÍLOGO
Um ano depois, encontravam-se ao pé da estação do Campo, para tomar o caminho de ferro, dois homens, um moço, o outro velho. Olham-se e reconhecem-se. Depois entram, compram bilhetes e tomam lugar em um carro de 1ª classe.
— Para onde vai? pergunta o velho.
— Vou para o Rodeio.
— Também eu.
Acomodaram-se, e, enquanto esperavam a hora, e não vinha mais ninguém para o mesmo compartimento, trataram de conversar sobre coisas de sua vida.
— Que faz agora? perguntou o moço ao velho.
— Sou um ex-médico. Vivo do que ajuntei.
— Eu sou um ex-poeta. Vivo do que aprendi.
— Fortuna por fortuna. Mas há uns bons seis meses que o não vejo. Ora, quem diria que aquele rapaz magro e quase morto se converteria neste rapagão corado, nédio, robusto... Bem lhe dizia eu.
— Devo-lhe tudo.
— A mim, não.
— Devo-lhe, sim.
— É então ex-poeta?
— Sou. Sou hoje o homem-prosa, vivo terra-a-terra, livre das quimeras que me atordoaram e nas quais não encontrei senão dissabores. Quis forçar a ordem das coisas e opor aos sentimentos comuns a idealidade do meus sentimentos. Sofri as conseqüências desta temeridade. Hoje, se não reneguei o culto da poesia, não faço praça dele, de modo que aquele dia em que me viu tão desanimado foi, por assim dizer, o último dia de um poeta.
O doutor olhou para o moço com ar incrédulo.
— Isso é verdade? perguntou.
— Mais que verdade.
— Não pensei que a mudança fosse radical. E D. Carlota?
— Essa vive, coitada, não sei se como eu. Nunca mais a vi. Bem sabe que uma barreira nos separava. Mas eu conservo-a comigo. Perdão, doutor... é a minha ilusão de namorado, de poeta e de rapaz... mas como vê, é inofensiva.
E o moço tirou um medalhão em que estavam as margaridas que durante a febre beijava e adorava.
— E sua mãe?
— Oh! essa é feliz! Vive comigo no Rodeio, onde nada nos perturba a felicidade santa de que gozamos. Pela felicidade que ela sente vendo-me vivo e são é que avalio a dor suprema que sentiria se eu morresse. Fiz bem em não morrer.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O último dia de um poeta. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.