Por Coelho Neto (1890)
O parque era uma extensa massa de verdura onde o luar punha reflexos de prata. As casas abertas recebiam a brisa e exalavam bafios quentes de forno. Passavam bondes apinhados, carros rodavam lentamente e os lampiões, em alas, estendiam reticências de ouro ao longo das ruas. Nos hotéis cheios havia um confuso rumor de vozes, tinidos de copos. Às mesas, de sórdidas toalhas, chalravam os trabalhadores, em mangas de camisa, os pés em grossos tamancos, soprando para o ar viciado densas baforadas de fumo. Era a gente sadia e forte da labuta brutal: homens de bíceps hercúleos, abaçanados das soalheiras, que repousavam estirando as pernas depois de bem repastados; eram os colonos que se reuniam, como em ágape fraternal, recordando a pátria, com pilhérias fortes de mesa à mesa e grandes obscenidades que faziam estourar gargalhadas.
Os caixeiros iam dum a outro com o parati, diziam a sua chalaça e, como havia intimidade entre esses homens, a pretexto de pândega, trocavam-se murros, mas ninguém se revoltava — era um divertimento heróico como de leões que, depois de haverem esquartejado a presa, a golpes de garras, nas clareiras desertas, perto das límpidas águas, rugindo, rolando, com as fauces rubras de sangue, brincam amigavelmente enquanto as fêmeas fartas, deitadas de flanco, os olhos semicerrados, deixam-se sugar pelos cachorrinhos.
Mais adiante, à porta de uma taverna, castanhas estalavam ao fogo e, junto ao balcão, sentado numa saca, um lazzarone, o cachimbo nos beiços, ia tirando da sanfona os sons da Mandolinata. O rumor crescia confuso: apitos de bondes, gargalhadas, estouros de garrafas, rodar pesado de carroções que se recolhiam e, no alto, sempre a paz maravilhosa da noite estrelada.
Quando chegaram ao largo do Rocio, Anselmo fez uma observação sutil citando Herôdoto. Em Babilônia havia, ao menos, um subúrbio sagrado onde avultava, entre cedros e loureiros, o templo de Mylitta, ainda assim o historiador clama contra a vergonha Que diria ele se, revivendo, viesse, tantos séculos depois, olhar a prostituição que aqui transborda e vai invadindo, como um vírus, todas as artérias da cidade? Lá, ela estava confinada, aqui expandiu-se — é um polvo que lança os tentáculos a toda parte. Não há uma rua em que se não encontre a aranha emboscada na sua teia.
— Estás moralista, disse Ruy Vaz, sorrindo. As mulheres, debruçadas às janelas, entre as cortinas, algaraviavam. O olhar, penetrando, dava imediatamente com os leitos muito lisos, muito alvos, ao fundo dos quartos entreabertos e iluminados. Não contentes com a exposição dos corpos ainda chamavam os transeuntes, atiravam-lhes botes e era em toda a ala, nos pavimentos térreos e nos sobrados, um rinchavelhar devasso de centenas de criaturas e aquilo lembrava uma cena de mercado oriental onde acudiam piratas levando mulheres de todos os países, expondo-as nuas, apregoando-lhes a beleza, obrigando-as a falar, a cantar para que os azevinheiros, que as andavam examinando, não só lhes vissem as formas sensuais, como também lhes ouvissem o timbre fresco e cantante da voz.
Umas fumavam; outras, já velhas, encarquilhadas, tristonhas, recaídas sobre o umbral, com a cabeça derreada, os olhos no céu, pareciam enlevadas e maquinalmente chamavam os que passavam perto, estendiam com vagar a mão, mas logo quedavam vendo-se desatendidas e baixinho, de novo elevando os olhos, repunham-se a cantar.
Pensavam, talvez, na pátria que haviam deixado, iludidas pela falácia do rufião. Pensavam nas suas pobres cabanas, nas aldeias geladas... Reviam-se na infância, levando o gado aos montes ou seguindo com a foicinha o bando dos ceifeiros para os campos de trigo ou de feno, nos dias alegres do outono. Pensavam nas noites tristes de bravio inverno, noites de vento e de neve quando, junto à brasa viva da lareira, os seus velhos parentes falavam da miséria pedindo a Deus um dia, ao menos, de sol para que os pequenos pudessem ir à orla da floresta recolher um pouco de lenha, que não havia para mais de uma noite e, quando a não houvesse, que seria deles, pobres velhos! E que seria das míseras crianças!
Pensavam e o peito subia-lhes em arfar angustioso... É que haviam visto, muito longe, alguém, alguém que, quando virgens, tanta vez saíram a esperar numa volta do caminho, quando o sino soava a hora crepuscular; alguém a quem haviam jurado amor e a quem haviam traído deixando-o pelas promessas enganosas do homem que as fora arrancar, para sempre, à felicidade e à honra.
Ah! mas era preciso viver... Gente passava. "Vem cá! Olha..." diziam molemente as desgraçadas com leve tremor na voz.
Outra, sentada numa cadeira de balanço, cochilava e, pela janela entreaberta de uma casa, Anselmo viu, não sem espanto, outra, em camisa, braços nus, pernas nuas, indo e vindo disfarçadamente, a abanar-se.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.