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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

O Ermitão de Muquém é um romance regionalista ambientado no interior de Goiás. A narrativa acompanha a trajetória de um homem que, após acontecimentos marcantes em sua vida, decide isolar-se como ermitão em busca de redenção espiritual. A obra aborda temas como culpa, fé, amor e arrependimento, ao mesmo tempo em que retrata costumes e paisagens do Brasil oitocentista.

AO LEITOR

Cumpre-me dizer duas palavras ao leitor a respeito da composição do presente romance, o qual (seja dito de passagem) repousa sobre uma tradição real mui conhecida na província de Goiás.

Consta este romance de três partes muito distintas, em cada uma das quais forçoso me foi empregar um estilo diferente, visto como o meu herói em cada uma delas se vê colocado em uma situação inteiramente nova, inteiramente diversa das anteriores.

A primeira parte está incluída no Pouso primeiro, e é escrita no tom de um romance realista e de costumes; representa cenas da vida dos homens do sertão, seus folguedos ruidosos e um pouco bárbaros, seus costumes licenciosos, seu espírito de valentia e suas rixas sanguinolentas. É verdade que o meu romance pinta o sertanejo de há um século; mas deve-se refletir que é só nas cortes e nas grandes cidades que os costumes e usanças se modificam e transformam de tempos em tempos pela continuada comunicação com o estrangeiro e pelo espírito de moda. Nos sertões, porém, costumes e usanças se conservam inalteráveis durante séculos, e pode-se afirmar sem receio que o sertanejo de Goiás ou de Mato Grosso de hoje é com mui pouca diferença o mesmo que o do começo do século passado.

Do meio dessa sociedade tosca e grosseira do sertanejo o nosso herói passa a viver vida selvática no seio das florestas, no meio dos indígenas. Aqui força é que o meu romance tome assim certos ares de poema. Os usos e costumes dos povos indígenas do Brasil estão envoltos em trevas, sua história é quase nenhuma, de suas crenças apenas restam noções isoladas, incompletas e sem nexo. O realismo de seu viver nos escapa, e só nos resta o idealismo, e esse mesmo mui vago, e talvez em grande parte fictício. Tanto melhor para o poeta e o romancista; há largas enchanças para desenvolver os recursos de sua imaginação. O lirismo, pois, que reina nesta segunda parte, a qual abrange os

Pousos segundo e terceiro, é muito desculpável; esse estilo um pouco mais elevado e ideal era o único que quadrava aos assuntos que eu tinha de tratar, e às circunstâncias de meu herói.

O misticismo cristão caracteriza essencialmente a terceira parte, que compreende o quarto e último Pouso.

Aqui há a realidade das crenças e costumes do cristianismo, unida à ideal sublimidade do assunto. Reclama, pois esta parte um outro estilo, um tom mais grave e solene, uma linguagem como essa que Chateaubriand e Lamartine sabem falar quando tratam de tão elevado assunto.

Bem sei que a empresa é superior às minhas forças; bom ou mau, porém, aí entrego ao público o meu romance; ele que o julgue.

Ouro Preto, 10 de novembro de 1858

O AUTOR

INTRODUÇÃO

As peregrinações devotas ou romarias são de uso imemorial em todos os países católicos. Ora penduradas no cume de um rochedo escarpado e quase inacessível, ora fundadas no seio de uma gruta natural, ou em algum vale escuro e triste em meio de florestas ou montanhas alterosas, em toda a parte do mundo cristão encontram-se disseminadas aqui e acolá essas pequenas capelas ou ermidas, que de ordinário devem a sua fundação a alguma lenda miraculosa, e que em épocas determinadas atraem a si milhares de romeiros e peregrinos.

Há sem dúvida grande dose de superstição nessas romarias, e o povo as tem feito perder muito da sua importância e prestígio, multiplicando-as infinitamente, instituindo romarias a granel por toda parte; todavia nem por isso deixam de ser uma das usanças mais poéticas e tocantes do cristianismo.

O Rio de Janeiro possui em seus aprazíveis e magníficos arrabaldes mais de uma ermida, que todos os anos em dias certos atrai imenso concurso de romeiros. A nobre e altiva Paulicéa também todos os anos vê saírem de seu seio milhares de habitantes, que em devota romaria vão levar oferendas e votos à milagrosa Nossa Senhora da Penha, que se adora em sua linda capela erigida a duas léguas da cidade em um risonho outeiro, que domina as aprazíveis lezírias por onde remanseia o Tietê.

Em Minas quem não tem ouvido falar no irmão Lourenço, nesse novo Paulo Eremita, que nos fraguedos da Serra do Caraça passou a vida na prática do mais rigoroso ascetismo e da mais austera penitência, e lá num recinto circundado de crespas e alterosas serranias erigiu um templo com a invocação de Nossa Senhora Mãe dos Homens, e lançou os fundamentos da grande instituição do seminário Caraça, que devia servir de núcleo aos filhos de Vicente de Paula para espalharem a luz da instrução e da fé por toda a província?

A capelinha de Nossa Senhora da Lapa, perto do arraial de Antônio Pereira, a duas léguas de distância do Ouro Preto, cavada pela natureza no flanco de uma montanha, é objeto também do fervoroso culto dos fiéis, e da admiração dos curiosos.

(continua...)

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