Por Machado de Assis (1864)
Machado de Assis (1839–1908), maior nome do Realismo brasileiro, publicou a comédia em versos “O bote de rapé” originalmente no livro Crisálidas, lançado no Rio de Janeiro em 1864. Em tom satírico, a peça ridiculariza o vício do rapé e os costumes urbanos, expondo com humor a vaidade, o consumismo e as tensões conjugais.
Personagens:
TOMÉ
UM RELÓGIO NA PAREDE
ELISA, sua mulher
O NARIZ DE TOMÉ
UM CAIXEIRO
CENA PRIMEIRA: TOMÉ, ELISA (entra vestida)
TOMÉ
Vou mandar à cidade o Chico ou o José.
ELISA
Para ... ?
TOMÉ
Para comprar um bote de rapé.
ELISA
Vou eu.
TOMÉ
Tu?
ELISA
Sim. Preciso escolher a cambraia,
A renda, o gorgorão e os galões para a saia,
Cinco rosas da China em casa da Malte,
Um par de luvas, um peignoir e um plissé,
Ver o vestido azul, e um véu ... Que mais? Mais nada.
TOMÉ (rindo)
Dize logo que vás buscar se uma assentada
Tudo quanto possui a Rua do Ouvidor.
Pois aceito, meu anjo, esse imenso favor.
ELISA
Nada mais? Um chapéu? Uma bengala? Um fraque?
Que te leve um recado ao Dr. Burlamaque?
Charutos? Algum livro? Aproveita, Tomé!
TOMÉ
Nada mais; só preciso o bote de rapé
ELISA
Um bote de rapé! Tu bem sabes que a tua Elisa...
TOMÉ
Estou doente e não posso ir à rua. Esta asma infernal que me persegue... Vês?
Melhor fora matá-la e morrer de uma vez,
Do que viver assim com tanta cataplasma.
E inda há pior do que isso! inda pior que a asma: Tenho a caixa vazia.
ELISA (rindo)
Oh! se pudesse estar Vazia para sempre, e acabar, acabar
Esse vício tão feio! Antes fumasse, antes.
Há vícios jarretões e vícios elegantes.
O charuto é bom tom, aromatiza, influi
Na digestão, e até dizem que restitui
A paz ao coração e dá risonho aspecto.
TOMÉ
O vício do rapé é vício circunspecto. Indica desde logo um homem de razão;
Tem entrada no paço, e reina no salão
Governa a sacristia e penetra na igreja.
Uma boa pitada, as idéias areja;
Dissipa o mau humor. Quantas vezes estou
Capaz de pôr abaixo a casa toda! Vou
Ao meu santo rapé; abro a boceta, e tiro
Uma grossa pitada e sem demora a aspiro;
Com o lenço sacudo algum resto de pó
E ganho só com isso a mansidão de Jacó.
ELISA
Não duvido.
TOMÉ
Inda mais: até o amor aumenta
Com a porção de pó que recebe uma venta.
ELISA
Talvez tenhas razão; acho-te mais amor Agora; mais ternura; acho-te. . .
TOMÉ
Minha flor,
Se queres ver-me terno e amoroso contigo,
Se queres reviver aquele amor antigo.
Vai depressa.
ELISA
Onde é?
TOMÉ
Em casa do Real;
Dize-lhe que me mande a marca habitual.
ELISA
Paulo Cordeiro, não?
TOMÉ
Paulo Cordeiro.
Queres,
ELISA
Para acalmar a tosse uma ou duas colheres
TOMÉ
Do xarope? Verei.
ELISA
Até logo, Tomé.
TOMÉ
Não te esqueças.
ELISA
Já sei: um bote de rapé.
(sai)
CENA II: TOMÉ, depois o seu NARIZ
TOMÉ
Que zelo! Que lidar! Que correr! Que ir e vir! Quase, quase lhe falta tempo de dormir.
Verdade é que o sarau com o Dr. Coutinho
Quer festejar domingo os anos do padrinho,
É de primo-cartello, é um grande sarau de truz.
Vai o Guedes, o Paca, o Rubirão, o Cruz
A viúva do Silva, a família do Mata,
Um banqueiro, um barão, creio que um diplomata.
Dizem que há de gastar quatro contos de réis.
Não duvido; uma ceia, os bolos, os pastéis,
Gelados, chá... A coisa há de custar caro.
O mal é que eu desde já me preparo
A despender com isto algum cobrinho...O quê?
Quem fala?
O NARIZ
Sou eu; peço a vossa mercê
Me console, insirindo um pouco de tabaco.
Há três horas jejuo, e já me sinto fraco,
Nervoso, impertinente, estúpido, -- nariz,
Em suma.
TOMÉ
Um infeliz consola outro infeliz;
Também eu tenho a bola um pouco transtornada,
E gemo, como tu, à espera da pitada.
O NARIZ
nariz sem rapé é alma sem amor.
TOMÉ
Olha podes cheirar esta pequena flor.
O NARIZ
Flores; nunca! jamais! Dizem que há pelo mundo
Quem goste de cheirar esse produto imundo.
Um nariz que se preza odeia aromas tais.
Outros os gozos são das cavernas nasais.
Quem primeiro aspirou aquele pó divino,
Deixas as rosas e o mais as ventas do menino.
TOMÉ (consigo)
Acho neste nariz bastante elevação,
Dignidade, critério, empenho e reflexão.
Respeita-se; não desce a farejar essências,
Águas de toucador e outras minudências.
O NARIZ
(continua...)
ASSIS, Machado de. O bote de rapé. In: ______. Crisálidas. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1864.