Por Machado de Assis (1862)
Machado de Assis (1839–1908), mestre do Realismo brasileiro, publicou “Nem uma nem outra” originalmente no Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, em 1873. O conto explora ciúme, interesse e orgulho, narrando o conflito amoroso de Vicente entre ambição e afeto, em crítica irônica às ilusões românticas e ao casamento por conveniência.
I
Uma tarde do mês de março de 1860, entrava no Hotel Ravot um velho mineiro, que, nesse mesmo dia, chegara de Mar de Espanha. Trazia um camarada consigo e alojou-se num dos aposentos do hotel, tendo o cuidado de restaurar as forças com um excelente jantar.
O velho representava ter cinqüenta anos, e eu peço perdão aos homens que têm essa idade sem todavia estarem velhos. O viajante de quem se trata, posto viesse de um clima conservador, estava todavia alquebrado. Via-se pela cara que não era homem inteligente, mas tinha nos traços severos do rosto os sinais positivos de uma grande vontade. Era alto, um pouco magro, tinha os cabelos todos brancos. No entanto, era alegre, e desde que chegou à corte divertia-se muito com os espantos do criado que pela primeira vez saía da sua província para vir ao Rio de Janeiro.
Quando acabaram de jantar, amo e criado entraram a conversar amigavelmente e com aquela boa franqueza mineira tão apreciada pelos que conhecem a província. Depois de rememorarem os incidentes da viagem, depois de comentarem o pouco que o criado conhecia do Rio de Janeiro, entraram ambos no principal assunto que trouxera o amo ao Rio de Janeiro.
Amanhã, José, disse o amo, precisamos ver se descobrimos meu sobrinho. Não vou daqui sem levá-lo comigo.
— Ora, sr. capitão, respondia o criado, eu acho bem difícil encontrar seu sobrinho numa cidade tamanha. Só se ficarmos aqui um ano inteiro.
— Qual um ano! Basta anunciar no Jornal do Commercio, e se não for bastante vou à polícia, mas hei de achá-lo. Tu lembras-te dele?
— Não me lembro nada. Vi-o só uma vez e há tanto tempo...
— Mas não o achas um bonito rapaz?
— Naquele tempo era...
— Há de estar melhor.
O capitão sorriu depois de pronunciar estas palavras; mas o criado não lhe viu o sorriso, nem lho perceberia, que é justamente o que acontece aos leitores.
A conversa parou nisto.
No dia seguinte, a primeira coisa em que o capitão Ferreira cuidou, logo depois do almoço, foi em levar um anúncio ao Jornal do Commercio, concebido nos seguintes termos:
Deseja-se saber onde mora o senhor Vicente Ferreira para negócio do seu interesse. Apenas deixou o anúncio, descansou o nosso capitão e ficou a esperar uma resposta. Mas, contra a expectativa, não apareceu resposta nenhuma no dia seguinte, e o capitão foi obrigado a repetir o anúncio.
A mesma coisa.
O capitão fez repetir o anúncio durante oito dias, sem adiantar um passo, mandou pô-lo em grandes tipos; mas continuava o mesmo silêncio. Convenceu-se por fim que o sobrinho não estava no Rio de Janeiro.
— Fizemos a viagem inutilmente, disse o capitão ao criado; voltemos para Mar de Espanha.
O criado alegrou-se com a idéia de voltar; mas o velho estava triste.
Para distrair-se de sua tristeza, saiu o capitão a dar um passeio depois do almoço, e dirigiu-se para os lados do Passeio Público.
Justamente na Rua do Passeio pareceu ver entrar em uma casa um sujeito que de longe lhe pareceu o sobrinho.
O velho apressou o passo e chegou à porta do corredor por onde entrara o vulto, mas não achou ninguém. Quem quer que era tinha já subido a escada.
Que fazer?
Lembrou-se de ficar na porta à espera; mas podendo ser que se houvesse enganado, a espera seria, sobre fastidiosa, inútil. O capitão lembrou-se de bater palmas. Com efeito, subiu o primeiro lanço da escada e bateu palmas. Pouco depois veio abrir-lhe a cancela um moço representando ter vinte e cinco anos de idade, a quem o capitão, apenas o viu, gritou com toda a força dos seus pulmões.
— Vicente!
— Quem é?
O capitão subiu os degraus sem responder e chegou ao patamar gritando:
— Pois não me conheces, sobrinho ingrato?
Dizer isto e atirar-se-lhe aos braços foi a mesma coisa. O rapaz abraçou ternamente o tio, não sem um pouco de acanhamento em que o capitão não reparou.
— Entre cá para a sala, meu tio, disse Vicente.
Entraram na sala, e se os olhos do tio fossem mais indiscretos teriam visto que, justamente no momento em que ele entrava na sala, saiu por um corredor interno um vestido de mulher.
Mas o capitão Ferreira ia tão embebido no sobrinho e tão contente por tê-lo finalmente encontrado, que não reparou em coisa alguma.
— Ora, graças a Deus que te encontro! disse ele sentando-se numa cadeira que lhe oferecia o rapaz.
— Quando chegou?
— Há dez dias. Não sabendo onde moravas, anunciei no Jornal do Commercio todos os dias, e sempre em vão. Não leste o anúncio?
— Meu tio, eu não leio jornais.
— Tu não lês jornais?
— Não, senhor.
— Homem, fazes bem; mas ao menos agora seria conveniente que houvesse lido; mas para isso era preciso que eu te avisasse, e eu não sabia da casa...
— Já vê... disse Vicente sorrindo.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Nem uma nem outra. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1873.