Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Romance de uma Velha é uma comédia teatral em cinco atos que aborda, com humor e ironia, conflitos amorosos, interesses materiais e convenções sociais do século XIX. A trama desenvolve-se por meio de diálogos ágeis e situações cênicas marcadas por rivalidades e desencontros afetivos, revelando críticas aos costumes e às aparências que orientam as relações humanas.
COMÉDIA EM CINCO ATOS
PERSONAGENS
VIOLANTE PORFÍRIO
CLEMÊNCIA AUGUSTO
IRENE LEOPOLDO
ACROBATA POLIDORO
BRAZ LAURIANO
CASIMIRO TIMÓTEO
MÁRIO Criado
Multidão – concurso de senhoras e cavalheiros.
A ação da comédia se passa na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1869.
ATO I
Chácara em um dos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro: Jardim espaçoso, que parece estender-se para o lado direito, onde fica em meio elegante casa, de que aparece a varanda de colunas e com escada para o jardim; ao lado esquerdo, gradil e portão de ferro, que abre para a rua; bancos de relva; perto do portão, cadeiras rústicas.
CENA I
VIOLANTE, em luto aliviado trajando decentemente, mas fora da moda, e trazendo touca a antiga e óculos fixos; BRAZ, vestido com igual decência, mas sem pretensões a elegância. Vem ambos conversando para o lado do portão; logo depois CASIMIRO, no maior apuro da moda, de luvas e bengalinha, desce da varanda.
VIOLANTE – No outro tempo não era assim! por fim de contas tudo está mudado.
BRAZ – Tudo, madrinha; e para no-lo provar basta um espelho et coetera.
(Sentam-se) Como Casimiro vem chic!
VIOLANTE (A Casimiro e depois de benzer-se) Estás de ponto em branco, e trazes uma gravatinha que te assenta, como a minha touca assentaria na cabeça de tua filha.
CASIMIRO – Vou dar um curto passeio e volto já para tomar café.
VIOLANTE – Vais ver a nossa vizinha? para velho tens bom gosto; mas Deus te perdoe a intenção.
BRAZ – Não apoquente o rapaz, madrinha! anda, Casimiro, aproveita a mocidade.
CASIMIRO – Também tu?...
BRAZ – Defendo a nossa causa; nascemos no mesmo ano, quando o Brasil
subiu a reino, descemos ou nos fizeram descer para este vale de lágrimas: 1815! meio século e mais quatro anos só! é a estação das flores! Vai ver a bela vizinha, rapaz.
VIOLANTE – Por fim de contas das três uma: ou namoras por vaidade, ou queres casar, ou pretendes seduzir.
CASIMIRO – Escolha à sua vontade qualquer das hipóteses.
BRAZ – Que suave condescendência! ouviu, madrinha? ele está por tudo; aceita a linda vizinha em todas as hipóteses.
VIOLANTE – Se namoras por vaidade, cais em cheio no grotesco: um velho namorando uma menina, o inverno rendendo finezas à primavera, é como...
BRAZ – É como um general brincando com bonecas, e um frade barbadinho dançando a polca... entretenimentos inocentes...
CASIMIRO – Então casa-me?
VIOLANTE – Viúvo, com dois filhos, e tendo cinqüenta e quatro anos, se casasses com uma menina de dezoito, merecerias que a própria noiva no fim de poucos meses te desse de palmatória.
BRAZ – Et coetera, madrinha, et coetera.
CASIMIRO – Resta a sedução: arvore-me em Fanblau ou em Casanova.
VIOLANTE – É nos casasvelhas que a sedução se mostra mais perversa e imperdoável. Por fim de contas, Casimiro, toma cuidado: quem tem telhado de vidro, não atira pedradas.
CASIMIRO – Não a entendo.
BRAZ – Nem pode entender: pois se a madrinha está falando em português!
VIOLANTE – Lembra-te de Clemência, que também é donzela e pobre.
CASIMIRO – Mas, graças a meus desvelos, perfeitamente educada. É capaz de pô-lo em dúvida?
VIOLANTE – Sou.
BRAZ – Magnífico!
CASIMIRO – E esta? Violante, você é a mais impertinente das velhas.
VIOLANTE – Clemência é boa menina por dotes que deve à natureza; tu, porém, deste-lhe uma educação que faz pena; preparaste nela uma boneca e não uma senhora, um atavio de sociedades e não um tesouro do lar doméstico; não a ornaste, afeitaste-a; e por fim de contas tomaste-a jóia falsa, resplendendo por fora, como diamante, e valor intrínseco nulo. Nem ao menos a ensinaste a amar a Deus; mas, em compensação, ela parece amar o próximo desesperadamente.
CASIMIRO – Que quer dizer, Violante?
VIOLANTE – Clemência aceita a corte de quantos lha querem fazer, e sorri a todos os mancebos; é verdade que por fim de contas ela tem bonitos dentes.
CASIMIRO – Minha filha sabe ser agradável sem comprometer-se.
VIOLANTE – Cumpria que fosse mais recatada. As donzelas devem ser como as flores cultivadas em estufas.
CASIMIRO – Para irmãs de caridade? nós cultivamos essas flores ao ar livre da boa sociedade. Você é um anacronismo vivo: quer que tudo se passe como no tempo do rei.
VIOLANTE – Se dirigiu mal a filha, ao filho muito pior.
CASIMIRO – Vamos lá: que acha em Mário?
VIOLANTE – É um vadio: está abandonado à mãe dos vícios, à ociosidade; aos vinte e três anos de idade Mário só se ocupa de andar trocando as pernas.
CASIMIRO – Há um ano que me empenho por obter para ele um emprego no tesouro ou na alfândega; isso, porém, hoje é tão difícil!
(continua...)
Romance de uma Velha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2160 . Acesso em: 6 jan. 2026.