Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Fernando e Fernanda

Por Machado de Assis (1866)

Machado de Assis (1839–1908) publicou o conto Fernando e Fernanda em 1866, no Jornal das Famílias, no Rio de Janeiro. O texto aborda o amor juvenil, a formação moral e a instabilidade dos afetos, explorando temas como fidelidade, vaidade e amadurecimento emocional. Com ironia sutil e análise psicológica, a narrativa antecipa traços centrais da obra madura do autor.


Tinham os mesmos nomes. Cresceram juntos, à sombra do mesmo amor materno. Ele era órfão, e a mãe dela, que o amava como se ele fora seu filho, tomou-o para si, e reuniu os dois debaixo do mesmo olhar e dentro do mesmo coração. Eram quase irmãos, e sê lo-iam sempre completamente, se a diferença dos sexos não viesse, um dia, dizer-lhes que um laço mais íntimo podia uní-los. 

Um dia, tinham ambos quinze anos, descobriram os dois que se amavam, e mais do que se amam irmãos. Esta descoberta foi feita durante uma troca de olhares e um contacto de mãos. 

— Fernanda! disse ele. 

— Fernando! respondeu ela. 

O resto foi dito nessa linguagem muda e eloqüente, em que o maior ignorante faz prodígios de retórica, retórica do coração, retórica universal. 

Mas o amor, sobretudo o amor calouro, como era o dos meus heróis, tem o inconveniente de supor que todo o resto da humanidade está com os olhos tapados e os ouvidos surdos, e que ele pode existir só para si, invisível e impalpável. 

Ora, não sendo assim, apesar da boa fé de Fernando e Fernanda, aconteceu que a velha mãe deu pelas coisas logo dois dias depois da primeira revelação. 

Esperavam os três a hora do chá, reunidos em torno de uma pequena mesa, onde Madalena (a mãe de ambos) punha em ordem uns papéis. Os papéis diziam respeito a várias reclamações que Madalena devia fazer, por parte de seu finado marido, à fazenda pública. 

Isto se passava em uma província do norte, e Madalena preparava-se, no caso de ser preciso, a vir pessoalmente ao Rio de Janeiro, apresentar as suas reclamações. Nesse serviço era a boa velha ajudada pelos dois filhos, a legítima e o adotivo; mas estes, sem quebra do respeito que votavam à mãe comum, esqueciam-se muitas vezes do que faziam, para confundirem por longo tempo os olhos, que, na frase chistosa de H. Murger, são os plenipotenciários do coração. 

Em uma dessas ocasiões, Madalena, com os olhos baixos, reunindo os papéis que lhe eram mais necessários, disse a Fernando que lhe fosse buscar um maço de documentos esquecidos no gabinete. 

Fernando não atendeu à ordem. 

Madalena repetiu as palavras, segunda vez, sem levantar os olhos. 

Igual silêncio. 

Madalena levantou a cabeça e ia pela terceira vez dizer a mesma coisa, quando reparou no êxtase em que estavam Fernando e Fernanda. 

Então, erguendo a voz, repetiu a ordem a Fernando. 

Este estremeceu, levantou-se e foi buscar o maço de documentos. 

Daí a pouco serviu-se o chá; porém Madalena, que era, sempre, tanto ou mais gárrula que os dois namorados, mostrou-se durante o chá de uma completa taciturnidade. Isto causou estranheza à filha e ao filho, mas não lhes inspirou suspeita alguma, pela simples razão de que nem ele nem ela conheciam ainda bem o alcance e a natureza do sentimento que os dominava. 

Explicarei a razão desta ignorância em corações de quinze anos. Nem Fernando nem Fernanda tinham prática do mundo; não viam ninguém; nada sabiam além do amor fraterno e filial em que foram criados.

Um velho padre, parente afastado de Madalena, ensinara-lhes a ler e a escrever várias línguas e a história sagrada; mas o modo por que era feito o ensino, a tenra idade em que eles começaram a aprender, a cor legendária que eles viam nos textos sagrados, tudo isso contribuía para que a idéia do amor dos sexos nunca se lhes apresentasse no espírito de um modo claro e positivo. 

Deste modo o episódio de Rute, verdadeira página da poesia rústica, era lido pelos dois sem comentário do coração, ou do espírito. 

Nem por curiosidade aconteceu perguntarem nunca o fim dos meios empregados pela irmã de Noemi em relação ao rico homem Booz. 

Eva, o fruto, a serpente, eram para Fernando e Fernanda a mesma serpente, o mesmo fruto, a mesma Eva, ocultos nos princípios da humanidade pelas névoas da legenda religiosa. 

Quanto ao Cântico dos Cânticos, o padre-mestre julgou dever suprimi-lo na Bíblia em que aprendiam os dois jovens parentes. Este padre-mestre, apesar de insistir no caráter alegórico do livro de Salomão, segundo a versão católica, julgou não dever dá-lo em leitura ao espírito de Fernando e Fernanda. 

Resultou de todo este cuidado que o coração juvenil dos dois namorados nunca teve idéia clara do sentimento que os unia tão intimamente. Era a natureza quem fazia as despesas daquele amor sem conseqüências. 

No dia seguinte ao da cena que narrei rapidamente, Madalena chamou os dois namorados em particular e interrogou-os. 

(continua...)

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →