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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

O “Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado na Capela Real, em Lisboa, no contexto da Quaresma de 1670, com o objetivo de promover a reflexão religiosa e moral. A partir da palavra “não”, Vieira discute a importância de reconhecer os próprios limites, criticando a ambição e defendendo a prudência e a sabedoria nas decisões humanas.

Non est meum dare vobis, sed quibus paratum esta Patre meo.

§1

Sermão dos pretendentes. Os filhos de Zebedeu e os descobridores portugueses. Onon e a serpente de Moisés. Não: palavra dura para quem a ouve e para quem a diz. O anjo de Deus e as petições de Abraão em favor das cinco cidades condenadas à destruição. É decente a um rei dizer não? No caso em que convenha, qual é o modo com que o deve dizer?

89. Estamos em sermão de pretendentes, e, segundo a experiência e queixa comum, ou seja com razão, ou sem ela, acho eu que os pretendentes das cortes, em seus requerimentos, são como os nossos argonautas e primeiros descobridores da Índia, senão que navegam ao revés e fazem a viagem às avessas. Os nossos descobridores primeiro passaram o Cabo de Não, e depois o Cabo de Boa Esperança; os pretendentes, pelo contrário, começam pelo Cabo de Boa Esperança, e acabam pelo Cabo de Não. Assim sucedeu hoje aos filhos do Zebedeu, que também eram navegantes. Começaram pelo Cabo de Boa Esperança, e com tão boa monção, que o passaram em uma sangradura, porque o vento era Galerno e o mar bonança. Fundavam a esperança na graça de Cristo, na eleição que deles tinha feito, e na prontidão com que tinham deixado, não só as barcas e as redes, como Pedro e André, senão também o próprio pai; fundavam a esperança no valimento de João, conhecidamente o mais aceito a Cristo, e descobertamente o amado entre todos os discípulos; fundavam a esperança na propinqüidade do sangue, por serem primos do mesmo Senhor, não reparando que os príncipes não têm parentes, e muito menos ao perto; fundavam finalmente a esperança na intercessão de sua mãe, que, por mulher, era digna de todo o respeito, e, por viúva, de toda a piedade. Mas ainda que passaram tão felizmente o Cabo de Boa Esperança, e se prometiam pronto e inteiro despacho, alfim acabaram como os demais pelo Cabo de Não: Non est meum dare vobis.

90. Terrível palavra é um non. Não tem direito, nem avesso; por qualquer lado que a tomeis, sempre soa e diz o mesmo. Lede-o do princípio para o fim, ou do fim para o princípio, sempre é non. Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz, que fugia dela por que o não mordesse, disse-lhe Deus que a tornasse ao revés, e logo perdeu a figura, a ferocidade e a peçonha. O mar não é assim: por qualquer parte que o tomeis, sempre é serpente, sempre morde, sempre fere, sempre leva o veneno consigo. Mata a esperança, que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males. Não há corretivo que o modere, nem arte que o abrande, nem lisonja que o adoce. Por mais que enfeiteis um não, sempre amarga; por mais que o enfeiteis, sempre é feio; por mais que o doureis, sempre é de ferro. Em nenhuma solfa o podeis pôr que não seja malsoante, áspero e duro. Quereis saber qual é a dureza de um não? A mais dura coisa que tem a vida é chegar a pedir; e, depois de chegar a pedir, ouvir um não. Vede o que será? A língua hebraica, que é a que falou Adão, e a que mais naturalmente significa e declara a essência das coisas, chama, ao negar o que se pede, envergonhar a face. Assim disse Bersabe a Salomão: Petitionem unam precor a te: ne confundas faciem meam (3 Rs. 2,16): Trago-vos, Senhor, uma petição: não me envergonheis a face. – E por que se chama envergonhar a face negar o que se pede? Porque dizer não a quem pede é dar-lhe uma bofetada com a língua, tão dura, tão áspera, tão injuriosa palavra é um não. Para a necessidade dura, para a honra afrontosa, e para o merecimento insofrível.

(continua...)

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