Por Padre Antônio Vieira (1673)
O “Sermão da Quarta-Feira de Cinza”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1673, na Igreja de Santo Antônio dos Portugueses, em Roma, durante a Quaresma. Nesse contexto religioso, Vieira busca levar os fiéis a refletir sobre a morte e a salvação da alma. O sermão defende que o homem deve abandonar as vaidades e os pecados, “morrendo” para o mundo antes da morte física, para alcançar a bem-aventurança eterna.
EM ROMA, NA IGREJA DE S. ANTÔNIO DOS PORTUGUESES.
ANO DE 1673, AOS 15 DE FEVEREIRO, DIA DA TRASLADAÇÃO DO MESMO SANTO.
Pulvis es, et in pulverem reverteris.
§I
Duas coisas prega hoje a Igreja: pó e pó. Um é a triaga e corretivo do outro, como os pós venenosos com que se quis envenenar o imperador Valente.
Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Assim comecei eu o ano passado, quando todos estávamos mais longe da morte; mas hoje, que também estamos todos mais perto dela, importa mais tratar do remédio, que encarecer o perigo. Adiantando pois o mesmo pensamento, e sobre as mesmas palavras, digo, senhores, que duas coisas prega hoje a Igreja a todos os vivos: uma grande, outra maior; uma triste, outra alegre; uma temerosa, outra segura; uma certa e necessária, outra contingente e livre. E que duas coisas são estas? Pó e pó. O pó que somos: Pulvis es, e o pó que havemos de ser: In pulverem reverteris. O pó que havemos de ser é triste, é temeroso, é certo e necessário, porque ninguém pode escapar da morte; o pó que somos é alegre, é seguro, é voluntário e livre, porque se nós o quisermos entender e aplicar como convém, o pó que somos será o remédio, será a triaga, será o corretivo do pó que havemos de ser.
Notável foi o caso sucedido em tempo do imperador Valente, do qual disse então, com elegante juízo, o poeta Ausônio aquela tão celebrada sentença: Et cum fata volunt, bina venena juvan.2 Quis uma inimiga doméstica tirar a vida com veneno ao senhor da casa, e depois de ter medicado a bebida com certos pós venenosos, duvidando ainda se teriam bastante eficácia para segurar melhor o efeito, mandou buscar outros. Vieram os segundos pós, lança-os na mesma taça a traidora, bebe o inocente marido, mas quando ela esperava que caísse subitamente morto, ele ficou tão vivo e sem lesão como dantes. Admirável acontecimento! Se os primeiros pós bastavam para matar, e os segundos também, ambos juntos, por que não mataram? Este homem não era Mitrídates, que se alimentasse com veneno. Se bebia só os primeiros pós morria; se bebia só os segundos, também morria. Pois por que não morreu bebendo uns e mais os outros? Porque os segundos pós foram corretivos dos primeiros. A guerra que haviam de fazer ao coração, fizeram-na entre si, e em vez de matar, mataram-se. Tais são os dois pós com que hoje nos ameaça a sentença universal de Adão: Pulvis es, um pó; In pulverem reverteris, outro pó, ambos mortais, ambos venenosos, mas se nós quisermos, não está na mão dos fados, senão na nossa, que um seja a triaga e o corretivo do outro. Isto é o que determino pregar hoje. A Igreja põe-vos sobre a cabeça uma cinza feita de palmas; eu hei-vos de meter na mão uma palma feita de cinzas. Havemos de vencer um pó com outro pó; havemos de curar um veneno com outro veneno; havemos de matar uma morte com outra morte: a morte do pó que havemos de ser; com a morte do pó que somos: Pulvis es, et in pulverem reverteris. Para que eu saiba preparar estes pós de modo que venham a ter uma tão grande virtude, e para que vós e eu saibamos aplicar como convém, não por cerimônia, que não é o dia disso, senão muito de coração, peçamos a assistência da divina graça: Ave Maria.
§II
Ser pó por eleição, antes de ser pó por necessidade, os que morrem quando morrem, segundo Davi, e os que morrem antes de morrer, segundo S. João.Os três perigos da morte: ser uma, ser incerta, ser momentânea.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.