Por Gregório de Matos (1696)
Este conjunto de crônicas, atribuído ao poeta barroco Gregório de Matos, foi produzido no século XVII, na Bahia colonial. As composições, muitas vezes satíricas e irônicas, retratam o cotidiano baiano sob a ótica de um exilado. O autor documenta com agudeza os costumes, vícios, a corrupção social e os flagelos da época, como a peste de 1686, utilizando uma linguagem erudita e contundente para criticar a hipocrisia e a precariedade da vida na Corte da então capital do Brasil.
Fazia apreço particular de huma viola, que por suas
curiosas mãos fizera de cabaço, frequentado diverti-
mento de seus trabalhos; e nunca sem ela foy visto nas
funções a que o convidavam.
Manuel Pereira Rabelo, licenciado
Que eu o ponho à viola
na postura de um cruzado
Tem-na lá, senhor vizinho,
a minha Ilária, Senhor?
Fugiu perdida de amor
pela manhã bem cedinho
DESCREVE A DEPLORÁVEL PESTE, QUE PADECEO A BAHIA NO A. 1686, A QUEM
DISCRETAMENTE CHAMÁRAM BICHA, PORQUE VARIANDO NOS SINTOMAS, PARA
QUE A MEDICINA NÃO SOUBESSE ATALHAR OS EFFEYTOS, MORDIA POR
DIFFERENTES BOCCAS, COMO A BICHA DE HERCOLES. TAMBEM LOUVA O
CARITATIVO ZELO DE ALGUMAS PESSOAS COM OS ENFERMOS.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.