Por Machado de Assis (1879)
Este conto de Machado de Assis (1839–1908), publicado originalmente no periódico A Estação em 1879, narra a trajetória de Julião e Henriqueta, dois irmãos que, após a morte do pai, vivem sob a premissa de "viver um para o outro". A harmonia desse vínculo é sutilmente tensionada pela entrada de novos personagens, como o Dr. Pimentel e a vivaz Fernandinha. Com sua fina ironia e análise psicológica, Machado disseca a complexidade dos laços afetivos e as ilusões do coração. Um convite irrecusável à leitura!
I
— Vivam um para o outro, foi a última palavra do coronel Trindade no leito da morte.
Ouviram-lhe, com religioso respeito, seus dois filhos Henriqueta e Julião, ela de 18 anos, ele de 20; mas nada lhe puderam responder. Cabia a vez ao soluço: a dor de perder o pai era mais que tudo naquela ocasião.
Também nada mais disse o moribundo; foi aquela a última palavra, se palavra se pode chamar um som mal expresso e já tingido da descor da morte. Poucos minutos depois morreu o coronel, e morreu sobre a tarde do dia 4 de outubro de 1862. A casa em que se finava era situada no Engenho Velho, e fora mandada construir por ele mesmo, alguns anos antes.
— Já sei que te pretendes casar, disse-lhe por essa ocasião o mais galhofeiro de seus amigos, o desembargador Tinoco.
— Não, retorquiu ele; a minha vida é cair com a casa — cairmos de velhos.
Mas a idéia falhou, e o coronel morreu com pouco mais de cinqüenta anos, viúvo qual era desde os quarenta, entre seus dois filhos e alguns parentes, mais ou menos chegados. Julião e Henriqueta deram ao morto as lágrimas do mais sincero desespero: não houve consolações, naquele lance, que pudessem entorpecer a dor íntima e profunda, nem minguar-lhes a manifestação ruidosa; não as podia haver. Desde longos anos, o velho coronel era para eles pai e mãe; era quem lhes substituía a esposa extinta e nunca deslembrada. Acresce que a doença que levava o pai fora rápida, e destruíra em poucos dias um organismo que parecia destinado a enterrar ainda muitos anos; e, ao cabo, o enterrado era ele, com todo o vigor de que dispunha.
Não era pobre o coronel Trindade, mas abastado, e sobre abastado, econômico; de maneira que, ao menos, não teve a dor de deixar os filhos ao desamparo — e digo ao desamparo, porque Julião não completara ainda os estudos, não tinha posição ou emprego, donde tirasse a subsistência, se precisasse de a ganhar. Estudava na Escola Central, diziam ser bom estudante, e assim provou ser em todos os exames que fez, e dos quais se saiu com aprovação plena, e não raras vezes com louvor. A esperança do coronel era ver o filho engenheiro, louvado e procurado — o engenheiro Trindade — filho do coronel Trindade; era a sua esperança e seria a sua glória. A realidade foi outra — tão certo é que a esperança é nada.
II
Um ano depois do acontecimento, apenas indicado no outro capítulo, recebeu Julião o seu diploma de engenheiro — e esse remate de alguns anos de honrado labor, de estudos sérios, não lhe deu a alegria com que contava; faltava uma pessoa. A irmã, que não menos do que ele sentia aquela ausência, buscou ainda assim dissimulá-la; e ele, pela sua parte, tratou de esconder o que sentia. Esses dois corações possuíam o melindre dos sentimentos, a discrição das dores repartidas, que não desejam agravar se mutuamente, e portavam-se com a habilidade que a natureza não concede a muitos, talvez a raros.
— Julião, disse Henriqueta três dias antes deste tomar o grau de engenheiro — tive uma idéia.
— Que é?
— Quero primeiro que você aprove.
— Mas que é?
— Aprova?
Julião sorriu.
— Se não é enforcar-me, aprovo, disse ele.
— Não é enforcar, é jantar; é jantar no dia em que você receber o seu diploma de engenheiro.
— Ora!
— Qual ora! Já tenho a lista dos convidados; são os nossos parentes.
— Só?
—Só.
— Titia, que diz? perguntou Julião a uma senhora idosa que estava na sala, a poucos passos, com um jornal na mão.
— Digo que Henriqueta pensa muito bem.
A tia de que se trata era-o por parte de mãe; tinha os seus cinqüenta anos, chamava se D. Antonica; vivia com eles desde a morte do irmão.
Não havia remédio: Julião aceitou o jantar; limitou-se, todavia, a pedir que não fosse lauto nem ruidoso; queria uma coisa puramente de família, porque o acontecimento era de família.
Já sabemos que Julião fora bom estudante; sabemos também que era excelente rapaz; acrescentemos que não era feio, antes bonito, gravemente bonito, másculo e sério. Não se imagine um jarreta, enfronhando a sua mocidade numa gravata de sete voltas; não: sabia ser elegante, gostava de andar à moda; não usava, porém, pedir à moda todas as suas extravagâncias e excessos; era discreto até no vestir.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um para o outro. A Estação, Rio de Janeiro, 30 jul. 1879 a 15 out. 1879.